terça-feira, 24 de março de 2026

Romances familiares


Os romances familiares

São turbulentos

Duram a vida toda de todos

Quem entra na família

Como companheiro ou amigo

Logo percebe no ar a tensão

E se vê envolvido no clima

Nesses romances não há perdão

Mas demandas que só entende

Quem está no meio

É possível respirar outro ar?

 

                                                          Igor Zanoni 

domingo, 22 de março de 2026

Meu bom José


1

O padre canta “Meu bom José”

O cabelo bem penteado

A túnica alinhada

A calça justíssima

Para quem adora as paredes

Da igreja

O padre é um ambíguo

Objeto de desejo

 

2

O amor é suave e cooperativo

A paixão contudo é avassaladora

Ela é um tiro no pé

 

                                           Igor Zanoni 

sábado, 21 de março de 2026

O amor ideal


O amor é inquisitivo

Observa atento

Espreita

Censura com doçura

Ouve o que está dito

E infere o não dito

Sobretudo corrige

O amor busca

Uma forma para o outro

Que lhe convenha

Procurando não perder

O pé da situação

 

                                                                Igor Zanoni 

sexta-feira, 20 de março de 2026

Família


Volta e meia a família se rebela

Tensiona cansa

Sem aviso prévio

Sem que eu saiba o motivo

Cada um tem seus motivos aliás

É difícil manter em paz

Uma comunidade

Como eu poderia?

Peço desculpa

John Lennon disse que amar

É pedir desculpa a cada cinco minutos

Quem consegue?

Ufa!

 

                                             Igor Zanoni 

quinta-feira, 19 de março de 2026

Flores de acácia


Não cabe em um poema a beleza

Das flores caídas de acácia

Tingindo de amarelo o chão

A beleza está aqui e ali

Às vezes rubra às vezes azul

Ela não cabe toda em um poema

Que nunca a esqueçamos porém

Está  nas flores que caem no outono

Quando mais haveriam de cair?

Como um bom lugar para estar

 

                                                                 Igor Zanoni 

terça-feira, 17 de março de 2026

Clínico


Meu médico pensa que eu sou

Um velhinho frágil

Sempre que eu o vejo

Faz testes para aferir

Minha acuidade mental

Pergunta se eu caí já na rua

E me prescreve exames

Para ver se não tenho osteoporose

Pede que eu leve ao consultório

Todos os meus medicamentos

Pediu uma ressonância do crânio

Porque errei uma pergunta no teste

Bem sei estou mesmo velho

Mas não tanto

O doutor não leva em conta

Minhas reservas de energia

E libido

Para ele estou precisando

Ser cuidado como um objeto

Que pode se quebrar

A qualquer momento

 

                                                               Igor Zanoni 

segunda-feira, 16 de março de 2026

Sacrário


Tenho há cinquenta anos

Alguns livros em minha estante

Estão limpos bem cuidados

Com aspecto de novos

Entretanto nunca os li

Sua leitura me comprometerá

Com algo que não conheço

Mas desejo

O Corão A Sociedade Primitiva

Ser e Tempo ...

Eles são o sacrário do meu futuro

 

                                                       Igor Zanoni