sábado, 12 de setembro de 2026

Minha esposinha


Minha esposinha acorda cedo

Vai à primeira missa do dia

Depois cuida da sua mãe

Que é muito idosa

Vai ver como está seu filho

Se precisa de alguma ajuda

Seu coração é cálido

E está sempre bem-disposta

Também cuida do que ganhamos

E vai comigo à feira

Minha esposinha é discreta

Não conversa sobre o que ignora

Sua virtude é a bondade

Calma quieta sempre presente

 

                                                  Igor Zanoni 

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

A melancolia


A vida é imensa

Ilimitada

Quando um poeta a canta

Mas há os que reduzem a vida

A algo mesquinho

Estes não sabem do que se trata

Anos se passam na modéstia

Dos dias

Assim vivem

Que pena

Mas talvez haja algo infinito

No menor dos seres

Apenas ele não sabe

A isso se chama melancolia

 

                                                       Igor Zanoni 

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Ele se foi


Embora há muito ele se tenha ido

Custo a crer que se foi

Que não está sempre comigo

Meu sonho com ele é nítido

Vejo-o ainda jovem

E a aura que desprende

É a do meu amigo

Há alguém que um dia se vá?

Não creio

Creio firmemente na vida eterna

Daqueles que amamos

Com doçura entretanto

Não com a amargura

Que os infelizes dedicam

Aos seus mortos

 

                                                       Igor Zanoni 

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Temporadas no inferno


Temporadas de ciático

Insônia

Síndrome do pânico

Enxaquecas

E sempre o mesmo desespero

Curaram-me meus psi pacientes

Algumas bolinhas

E a meditação zen

Não sorria

Não é o caso

Foram temporadas no inferno

 

                                                           Igor Zanoni 

terça-feira, 8 de setembro de 2026

A poesia cotidiana


A poesia está nas pedras

Das calçadas que as pessoas

Percorrem

Sem carros ou motos

Apenas com seus corpos

Vemos as pessoas aí

Admiramos

A poesia escapa dos corpos

Da troca eventual de palavras

Dos toques eventuais

Assim se descobre e vive

A poesia cotidiana

 

                                                        Igor Zanoni 

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Álbum


Criança ainda, ganhei de meu pai

Um álbum de figurinhas

Ali havia povos originários

Apaches esquimós araucanos

Habitantes da Terra do Fogo

E outros para os quais o álbum

Eram quase as cinzas

De um antropólogo

 

                                            Igor Zanoni 

domingo, 6 de setembro de 2026

Sensibilidade


Eu era sensível a tudo que me dizia

Às vezes me sentia feliz

Às vezes me entristecia

Não que o que me dizia

Fosse em extremo pertinente

Mas era o que me dizia

O que à sua vida pertencia

Outro me dirá : ora, você a amava

Esse era o seu encanto

Mas eu era inocente disso

Disso eu não sabia

O amor que não se sabe

Se torna vulnerável

Por isso ela mesma

Ignorava se me alegrava

Ou fundo me feria

 

                                                                                    Igor Zanoni