terça-feira, 4 de agosto de 2026

Lembranças


As relações são conflitos

Quando se vive logo tempo

Com alguém

Restam fragmentos de uma vida

Que mal se sabe se foi boa

Quando nos separamos

Restam sombras remorsos

A percepção de que não fomos

Pares muito bons

Que nosso amor pisou em falso

E agora é difícil retomar

Um contato feliz

Meu Deus quanta culpa

Precisamos começar por nos livrar

Da nossa culpa e da culpa do outro

 

                                                      Igor Zanoni 

domingo, 2 de agosto de 2026

Nossas mentiras


Mentimos muito

Mal percebemos quando e quanto

Buscamos assim caber na mente

E na vida do outro

Este que sempre nos julga

Desejamos que nossas estórias

Deem certo no fim

Desejamos sucesso e aplauso

No palco que todos os dias

Criamos para nós

Nós  personas temerosas

E mentirosas

 

                                                             Igor Zanoni 

sábado, 1 de agosto de 2026

Senilidade


A morte mais dolorosa

Se dá no interior

De um casal longevo

Com suas memórias de amor

Separações retornos

Paixões

E mil miudezas

Visitas a médicos

Amigos que se vão

O tempo não parece infinito?

E no entanto cessa

Deixando um irremediavelmente longe

Outro irremediavelmente só

Lembrando que também ele

Logo irá morrer

 

                                                   Igor Zanoni 

sexta-feira, 31 de julho de 2026

Sonhos


O seu João fala

Sobre aquilo que vive

Mas às vezes se sobressalta

Com seus sonhos

Para os quais ele não tem

Palavras

 

                                                        Igor Zanoni 

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Um bom intérprete


O ser se diz de muitos modos

Mas mesmo no sonho

Em que aparece cristalino

É difícil e cheio de ardis

Todo sonho precisa

De um bom intérprete

O que será de nós

Sós e tateantes

Em nosso pobre entendimento?

 

                                                     Igor Zanoni  

terça-feira, 28 de julho de 2026

O nascimento do sol


Quando nasci

O sol havia nascido há muito

Há bilhões de anos

Ninguém poderia nascer sem o sol

Em nenhum momento do mundo

Mas quando o sol se for

E levar da terra a sua luz

Eu terei morrido há muito

Há bilhões de anos

Todavia, jamais haverá no mundo

Uma morte para todos decisiva

Sem que o sol morra antes

Nosso velho sol é sempre

Nova vida

Enquanto viver

 

                                                                          Igor Zanoni 

domingo, 26 de julho de 2026

O ser e o ente


A visão do rio

O uniforme do grupo escolar

O batalhão de fronteira

Os caixõezinhos brancos rumo ao cemitério

O ofidiário de papai e frei Casimiro

A saia rodada de minha mãe

A  multiplicidade dos entes

Na unidade do ser

 

                                                        Igor Zanoni