Faz bem dividir
com outro
O mesmo ódio
O ódio une mais as
pessoas
Do que o amor
Ele é uma forma
perversa
De solidariedade
Igor Zanoni
Faz bem dividir
com outro
O mesmo ódio
O ódio une mais as
pessoas
Do que o amor
Ele é uma forma
perversa
De solidariedade
Igor Zanoni
Nunca o que
vivemos é tão claro
Como no sonho
Esta cena
silenciosa
Mesmo quando agitada
Como nos aproximar
Do que sonhamos?
Na manhã clara os
sonhos
Deixam restos
noturnos
Inconclusos
Mesmo sem palavras
Há pouco eram tão
claros
Esses sonhos
Mas agora o que temos?
Um quarteto de
jazz
Em pleno cabaré
Com os
instrumentos
Calados
Ah como nos toca
esse swing!
Igor Zanoni
Sucessivos lutos
somam sentidos
Um homem idoso
revê o que viveu
Pelas lentes de
quem é saudoso
Tantos familiares
tantos amigos
Tantos queridos
tantos lugares na vida
Eles criam um
longo corredor
Com paredes cheias
de traços
Se foi só quando
criança
E se sentiu bem
Também agora será
só
E se sentirá bem
Não feliz o que
pouco se é
Mas tranquilo
sonhador sóbrio
E se uma lágrima
cai dos olhos
Ora o que há com
você meu caro?
Perguntará com
surpresa
Igor Zanoni
Cigarros
Silêncio
Pensar o que você
pensa
As mãos dadas
Você reparou?
Nunca estamos sós
Nosso longo tempo
juntos
Não se vá antes de
mim
Nem depois
Ascenderemos às
nuvens
Juntos
As mãos dadas
Igor Zanoni
Originalmente
Curitiba significava
Terra-de-muito-pinhão
Mas como se
formaram aqui
Grandes colônias
polonesa e ucraina
E elas gostam
muito de pierogi
Curitiba passou a
significar
Terra-de-muita-batata
Igor Zanoni
Curitiba tem duas
estações
A das chuvas e a
do frio
Que vêm sempre
juntas
Quando entre o
Natal e o Ano Novo
O sol aparece
Os nativos descem
para Matinhos
Gastando o
décimo-terceiro
Igor Zanoni
Nunca te vi
Mas guardei
intacta
Minha saudade
antecipada
Quando vier saberá
Que aqui está o
seu lugar
Sua paz seu
conforto
O amor que
esperava
Venha não importa
Com que demora
Eu sei esperar
Sou um homem
paciente
Porque o amor
É paz e paciência
Igor Zanoni
Andamos lado a
lado com um amigo
Por muitos anos
A amizade permite
camaradagem
E um anel de calma
solidariedade
O amor é mais
rigoroso
Exigente conosco
É claro que aqui
os laços são outros
Raras vezes o amor
admite
Uma boa amizade
Igor Zanoni
O Reino de Deus
não está aqui ou ali
Ele está entre nós
Nas relações que
tecemos
Melhor: naquelas
que forjaremos
Não apenas ao
construir
Uma sociedade boa
Mas também uma em
que a oração
Não será um mero
implorar
Mas sobretudo
agradecer
O coração a um
tempo
Alegre e reverente
Igor Zanoni
Sabemos logo que
uma casa é habitada
Ao entrar na sala
e perceber
Um paletó jogado
sobre o sofá
Ou copos sujos na
mesinha de centro
Com certeza
resquícios da noite passada
Ou se na cozinha
os pratos estão ainda na pia
Se no quarto a
cama não está feita
Uma casa assim
fala da vida dos seus moradores
Ela é apropriada
nesse uso denunciado
Pode-se dizer que
ela mesma vive
E já não é uma
casa mas um lar ou uma morada
Igor Zanoni
Minha esposinha
acorda cedo
Vai à primeira
missa do dia
Depois cuida da
sua mãe
Que é muito idosa
Vai ver como está
seu filho
Se precisa de
alguma ajuda
Seu coração é
cálido
E está sempre
bem-disposta
Também cuida do
que ganhamos
E vai comigo à
feira
Minha esposinha é
discreta
Não conversa sobre
o que ignora
Sua virtude é a
bondade
Calma quieta
sempre presente
Igor Zanoni
A vida é imensa
Ilimitada
Quando um poeta a
canta
Mas há os que
reduzem a vida
A algo mesquinho
Estes não sabem do
que se trata
Anos se passam na
modéstia
Dos dias
Assim vivem
Que pena
Mas talvez haja
algo infinito
No menor dos seres
Apenas ele não
sabe
A isso se chama
melancolia
Igor Zanoni
Embora há muito
ele se tenha ido
Custo a crer que
se foi
Que não está
sempre comigo
Meu sonho com ele
é nítido
Vejo-o ainda jovem
E a aura que
desprende
É a do meu amigo
Há alguém que um
dia se vá?
Não creio
Creio firmemente
na vida eterna
Daqueles que
amamos
Com doçura
entretanto
Não com a amargura
Que os infelizes
dedicam
Aos seus mortos
Igor Zanoni
Temporadas de
ciático
Insônia
Síndrome do pânico
Enxaquecas
E sempre o mesmo
desespero
Curaram-me meus psi
pacientes
Algumas bolinhas
E a meditação zen
Não sorria
Não é o caso
Foram temporadas no inferno
Igor Zanoni
A poesia está nas
pedras
Das calçadas que
as pessoas
Percorrem
Sem carros ou
motos
Apenas com seus
corpos
Vemos as pessoas
aí
Admiramos
A poesia escapa
dos corpos
Da troca eventual
de palavras
Dos toques
eventuais
Assim se descobre
e vive
A poesia cotidiana
Igor Zanoni
Criança ainda,
ganhei de meu pai
Um álbum de
figurinhas
Ali havia povos
originários
Apaches esquimós
araucanos
Habitantes da
Terra do Fogo
E outros para os
quais o álbum
Eram quase as
cinzas
De um antropólogo
Igor Zanoni
Eu era sensível a
tudo que me dizia
Às vezes me sentia
feliz
Às vezes me
entristecia
Não que o que me
dizia
Fosse em extremo
pertinente
Mas era o que me
dizia
O que à sua vida
pertencia
Outro me dirá :
ora, você a amava
Esse era o seu encanto
Mas eu era
inocente disso
Disso eu não sabia
O amor que não se
sabe
Se torna
vulnerável
Por isso ela mesma
Ignorava se me
alegrava
Ou fundo me feria
Igor Zanoni
Muitos vivem a
poesia
Sem saber dizê-la
Um poeta recolhe
os traços
Da poesia
espalhada no mundo
E dá a ela uma
forma em palavras
E música
É assim que a
poesia da vida
Se revela
Não basta vivê-la
É preciso dizê-la
Igor Zanoni
Ainda que os
limites da memória
Sejam vastos
Temos em muitos
casos índices
De uma pessoa um
momento
Um acontecimento
Como se a memória
não pudesse
Dar conta de todo
o lembrado
Esse rapaz por
exemplo
Lembro muito bem
seu sorriso
Tudo o mais se
esfuma
O lugar a
vestimenta o assunto
Chamou-me atenção
o sorriso
Como o de um gato
de Cheshire
Igor Zanoni
Ela vê muitas
pequenas tarefas
A serem vencidas
até
Sabe-se lá quando
Sabe o quanto é
importante
Estar calma e
equilibrada
Neste tempo
indefinido
Sabe o quanto
essas tarefas
Vão demandar do
seu amor
Embora às vezes se
irrite
Então para se
manter bem
Ela se apoia em
Jesus
Viver bem é para
ela
Estar apoiada nele
O homem-Deus
gentil
E paciente
Igor Zanoni
Uma relação é
feita
de pequenos
acordos
Para que o cotidiano
e seus impasses
se mantenha
mas subjacente a
tudo
é preciso que o
amor mesmo
se mantenha
uma relação deve
ser
amorosa e
cooperativa
mas há de haver
também
o momento dos
passeios
das férias das
viagens
no qual a
maravilha do mundo
se sobreponha à
missão
de sustentar como
Atlas
o mundo como o
conhecemos
Igor Zanoni
A felicidade é uma
virtude serena
Nada tem a ver com
a excitação
A mania
Se você está ao lado
de alguém
E sente-se
relaxado
O coração
tranquilo
Descobre que ama
esse ser
Oh ser que caiu na
terra
Justo na minha
vida!
Vamos passar a
noite aqui
Ouvindo música
Tomando uma
cerveja
Com limão e sal
Igor Zanoni
Olha alvorecem novas
neuroses
Sempre e sempre
como nosso infeliz
Impulso à
repetição
Mas há um novo contexto
A terra se
desmorona
Os seres se
desamparam por si
Há uma cisão que
percorre
O mundo físico e a
humanidade
Extingue espécies
Dissolve as
calotas polares
Aquece o Pacífico
De modo que não
podemos manter
Um Eros saudável
E uma quietude
própria
Do prazer
alcançado
O impulso de morte
nos pegou de jeito
Vamos ao fundo
como em uma escala menor
E muito mais
glamourosa
Foi ao fundo o velho
Titanic
Igor Zanoni
Um dia limpa as
lágrimas do outro
um dia equilibra quem no outro dia
estava se sentindo
confuso
a ansiedade não é permanente
a vida não é puro desperdício
mas é preciso insistir em um boa vida
esta tem muitos ângulos
por isso é preciso ter
alguma sabedoria e
muita paciência.
Igor Zanoni
Nunca chegamos
O caminho não é
muito claro
Vamos como podemos
Às vezes ansiosos
Às vezes nos dando
parabéns
Para a frente e
para trás
Vamos como podemos
Nossas marcas da
vida
Estão no corpo que
envelhece
Ou na saudade que
nos envolve
Com tanta
brutalidade
Muitos se foram há
tempos
Estamos ainda aqui
Um pouco perplexos
Pedindo ajuda ao
céu
Que exista um céu
para nós
Igor Zanoni
Às seis da manhã a
igreja está cheia
Na quaresma de São
Miguel Arcanjo
O guardião do céu
No início do
século XIX proclamou-se
A morte de Deus
Dois séculos
depois Deus está aqui
Ao menos como
poesia
E como amparo de
todos os dias
Igor Zanoni
Ela quer ir ao
centro
Comer um bolo na Dois
Corações
E olhar as
vitrines
Como fazia há
muito tempo
Mas agora apoiada
na bengala
E reclamando do
vento
E das suas dores
Cada vez mais se
limita
Ao exíguo espaço
da casa
A televisão ligada
em uma missa
Na qual o padre
abençoa
O jarro de água que
ela colocou
Em frente na
estante
O elixir que ela
bebe
Durante o dia todo
Igor Zanoni
Hoje posso andar
sob essa luz
Tão cálida
Sob as folhas dos
ipês
Ao lado dos
narcisos e damas da noite
Entre o perfume da
primavera
E o pólen que me
faz doente
Amanhã estarei em
outra situação
Já será verão
Com o calor
insuportável que hoje
O verão nos traz
E lembrarei dos
jardins floridos
À época do nascimento
da primavera
Igor Zanoni
Alguém que não se
entende muito
Que parece um
pouco esquisito
É chamado neurodivergente
Mas não é nada
disso
Ele só tem o seu
jeitinho de ser
Igor Zanoni
A vida se abateu
sobre mim
Cedo percebi sua
paixão
Seu difícil labor
Soube também muito
cedo
Da necessidade de
estar atento
De cultivar cada
instante
Para salvar a alma
Assim vivi
Assim cuidei de
mim
Procurando a
alegria escondida
Nas dobras dos
momentos
Para fazer de mim
algo possível
Algo com sentido
E com a necessária
beleza
Igor Zanoni
Vou demorar muito
tempo antes que possa
Saber o que dizer
sobre isso
Esse incômodo que
busca prazer
E encontra sempre
dimensões novas de dor
Esse fechar-me em
mim sem palavras
Mas cheio de
sentido todo pleno
Ausência do objeto
amado
Buscado à exaustão
O peito trancado
como uma jaula feroz
Os leões foram
soltos na arena
Mas não sei o meu
destino diante deles
Isso se chama
sofrimento
Sem amargura me
recolho em mim
Com o amor que não
diz não pode dizer
Seu nome próprio
Igor Zanoni
1
Há uma Nossa
Senhora
Para cada forma de
aflição
Para não
adoecermos rezamos
Para nossa Senhora
da Saúde
Mas se acabamos adoecendo
Para Nossa Senhora
dos Remédios
No fim da vida
rezamos com certo desgosto
Para Nossa Senhora
da Boa Morte
2
No calendário dos
santos
Há até uma Nossa
Senhora da Boa Morte
Mas nunca encontrei
A Nossa Senhora da
Boa Vida
Igor Zanoni
Quando você se
sente feliz
Não eufórico ou
elétrico
Apenas feliz
Os olhos calmos
O corpo relaxado
E vive a vida
Em um perene
momento
De paz esquisita?
Igor Zanoni
Para onde vão os
sonhos
Depois que
acordamos?
Permanecem no
inconsciente
Prontos para
reaparecer outra noite
Como desejos bem
guardados
Divididos com o
doutor
Igor Zanoni
As relações são
conflitos
Quando se vive
logo tempo
Com alguém
Restam fragmentos
de uma vida
Que mal se sabe se
foi boa
Quando nos
separamos
Restam sombras
remorsos
A percepção de que
não fomos
Pares muito bons
Que nosso amor
pisou em falso
E agora é difícil
retomar
Um contato feliz
Meu Deus quanta
culpa
Precisamos começar
por nos livrar
Da nossa culpa e
da culpa do outro
Igor Zanoni
Mentimos muito
Mal percebemos
quando e quanto
Buscamos assim
caber na mente
E na vida do outro
Este que sempre
nos julga
Desejamos que nossas
estórias
Deem certo no fim
Desejamos sucesso
e aplauso
No palco que todos
os dias
Criamos para nós
Nós personas temerosas
E mentirosas
Igor Zanoni
A morte mais
dolorosa
Se dá no interior
De um casal
longevo
Com suas memórias
de amor
Separações
retornos
Paixões
E mil miudezas
Visitas a médicos
Amigos que se vão
O tempo não parece
infinito?
E no entanto cessa
Deixando um
irremediavelmente longe
Outro
irremediavelmente só
Lembrando que
também ele
Logo irá morrer
Igor Zanoni
O seu João fala
Sobre aquilo que
vive
Mas às vezes se
sobressalta
Com seus sonhos
Para os quais ele
não tem
Palavras
Igor Zanoni
O ser se diz de
muitos modos
Mas mesmo no sonho
Em que aparece
cristalino
É difícil e cheio
de ardis
Todo sonho precisa
De um bom
intérprete
O que será de nós
Sós e tateantes
Em nosso pobre
entendimento?
Igor Zanoni
Quando nasci
O sol havia
nascido há muito
Há bilhões de anos
Ninguém poderia
nascer sem o sol
Em nenhum momento
do mundo
Mas quando o sol
se for
E levar da terra a
sua luz
Eu terei morrido
há muito
Há bilhões de anos
Todavia, jamais
haverá no mundo
Uma morte para
todos decisiva
Sem que o sol
morra antes
Nosso velho sol é
sempre
Nova vida
Enquanto viver
Igor Zanoni
A visão do rio
O uniforme do
grupo escolar
O batalhão de
fronteira
Os caixõezinhos
brancos rumo ao cemitério
O ofidiário de
papai e frei Casimiro
A saia rodada de
minha mãe
A multiplicidade dos entes
Na unidade do ser
Igor Zanoni
A solidão é uma
segunda pele
A proteger do frio
encontro com a vida
Ela nasce com o
rapaz tão jovem
Procurando seu
lugar
Entre as relações
da casa paterna
E o pequeno mundo
da rua
Os amigos também
jovens
A estranheza do
que vivem os pais
O espaço minúsculo
de criança
E no entanto
difícil
Do qual se precisa
preservar
Auscutar entender
Suportar a
angústia do que o rodeia
Igor Zanoni
Buscar a plenitude
é ilusório
Talvez os santos a
alcancem
Mas às vezes ela
nos toma
Em uma relação com
o amor
Quando um sério
problema é resolvido
E podemos
descansar
Assim o corpo
relaxa
Os olhos quase se
fecham
E a vida nos
parece tão bem-vinda
Igor Zanoni
Eu tinha uns dez
anos
Naquele dia lembro
bem
Saí de casa e me
dirigi à rua
O sol à minha
frente
Eu sozinho
Com uma solidão só
minha
Diante da
perspectiva
De viver tão
comigo
Sob o sol que
batia à frente
Igor Zanoni
Difícil crer em
Deus
Mas cremos nos que
nos rodeiam
E agem com o
coração em Deus
Logo de certa
forma
Cremos também
Ele é fruto de
nossas relações
Ele está no meio
de nós
Para que desejar
uma crença
Além dessa?
Igor Zanoni
O sábado passa
suavemente
As crianças hoje
não têm aula
E brincam de bola
na calçada
Eu comprei frango
assado e maionese
E minha mulher se
prepara para a missa das três
Tudo é calmo e
caseiro
Mas a avó que
sente o friozinho de Curitiba
Comenta na falta
de outro comentário
Meu Deus! Quanta
correria!
Igor Zanoni
Nem sempre é
possível
Prover ao que nos
falta
Viver é uma falta
crescente
Viver é perder
Até aquele dia em
que tudo
Vai se perder
Melhor acostumar-se
Com o que temos
nas mãos
Melhor ser sóbrios
E guardar um lugar
na alma
Para o que se foi
Igor Zanoni
Já no ensino
fundamental se aprende
Para nunca mais esquecer
O alfabeto a
aritmética desenho
Mais tarde maravilhas
como o princípio
Dos vasos
comunicantes a gravidade
O sistema solar
No segundo grau se
aprende as equações
De Maxwell
O cálculo
diferencial a tabela periódica
E quando se faz
uma graduação
Aprende-se que agora
se é um jovem adulto
Que você ganhou
uma nova etapa na vida
Igor Zanoni
Flashes de minha
vida
Eu me sinto
sozinho em mim
Desloco-me em
qualquer atividade
Saio de casa e
sinto o sol
Não posso
compartilhar o que sou aí
Tenho uma
infinidade desses flashes
Não sei quantos
nem bem quais são
Momentos
narcísicos perdidos em minha alma
Que súbito
recupero como eu mesmo
Como encontro ou
saudade
Momentos
interiores em que minha alma
Está só com
consigo
Com o mundo
Plena calma por
exemplo
Me deslocando na
rua como um ser
Completo e sozinho
E que não quer
outro
Quer apenas
habitar esse mundo
Que de repente me
vem
Igor Zanoni
Eles eram
inseparáveis
Compartilhavam suas
ideias
Seu tempo quase
todo
Ouviam jazz
fumando um
Iam à praia em
Bertioga
Seus amigos eram
os mesmos
Namoraram as
mesmas meninas
Achavam que eram
grandes amigos
Não perceberam mas
na verdade
Eles mantiveram um
longo flerte
Igor Zanoni
No fundo do jardim
Asfixiado por
damas-da-noite
Eu e meu amigo
preferido
(como ele outro
jamais tive)
Fumávamos
Hollywood sem filtro
Ouvindo Miles
Davis
Isto aconteceu
centenas de vezes
Mas agora é
impossível
Como é impossível
uma aurora
Nascer à
meia-noite
Uma primavera ser
eterna
Uma amizade jamais
findar
Ao menos por
sermos mortais
Igor Zanoni
A alma não é caótica
Sentimentos
vivências antigas
Saltam em mim sem
que saiba bem
Seus motivos
O porquê de tais revivências
Há milhares de
atos físicos
E emocionais em
minha vida
Submersos ocultos
Mas súbito me vêm
Convocados pelo
momento
Há em mim um
quebra-cabeças
Com milhares de
peças
Que de repente
surgem
Fazem sentido
E ordenam por
instantes meu viver
O doutor me fala
em inconsciente
Mas não é bem nada
disso
Minha vida se
organiza e se perde
Mal sei como
Mas nela sou esse
ser envolto
Em tanta
perplexidade
Como se mil
pássaros brancos
Despertassem minha
psique
Depois me
deixassem
Igor Zanoni
Os homens de todos
os dias
Vivem a vida de
pés no chão
Trabalham fazem o
rancho
Olham os filhos
Em nada há
transcendência
Exceto quando aos
sábados
Às sete da noite
vão à missa
Com sua esposa
Igor Zanoni
Tenho uma ideia um
pouco vaga
De onde fica a
Croácia
Mas vejo na tevê
sua seleção de futebol
Sob o comando de
Luka Modric
Com o patrocínio
da Coca e da Visa
Bom, eu também
tomo Coca
E como todos tenho
uma dívida
Com o cartão da
Visa
Isso me aproxima
da Croácia?
Igor Zanoni
Minha oração
cotidiana
É minha confissão
Minha autoanálise
Assim entra Deus
Em minha vida
Como parceiro
Ao qual faço
transferência
E cujo amor
desenho
No diário pensar a
vida
Igor Zanoni
Os bons jogadores
de futebol
Conseguem colocar
a bola onde querem
No ângulo da trave
Ou na cabeça
certeira de um companheiro
É curioso como
conseguem
Nós somos mais
habilidosos com as mãos
Mas os bons
jogadores usam quase sempre ´
Os pés calçados
nas chuteiras
As mãos distinguem
os homens dos símios
Talvez os
jogadores de basquete
Estejam adiante na
evolução da espécie
Igor Zanoni
Alguém inteligente
logo nos chama
A atenção
Esta pode se
volver em amor
O amor nasce em
muitas fontes
A beleza a bondade
o cuidado
Mas não sabemos
porquê amamos
Amamos e pronto
Nos encantamos com
a figura do outro
Felizes se
correspondidos
Melancólicos se
não
O amor nos toma
Depois buscamos
motivos
O amor desconhece
seus motivos
Mas sabe
inventá-los quando a paixão
Nos toma
Contudo ele é um
estado de espírito
Não uma exegese
sem lugar
Igor Zanoni