O seu João fala
Sobre aquilo que
vive
Mas às vezes se
sobressalta
Com seus sonhos
Para os quais ele
não tem
Palavras
Igor Zanoni
O seu João fala
Sobre aquilo que
vive
Mas às vezes se
sobressalta
Com seus sonhos
Para os quais ele
não tem
Palavras
Igor Zanoni
O ser se diz de
muitos modos
Mas mesmo no sonho
Em que aparece
cristalino
É difícil e cheio
de ardis
Todo sonho precisa
De um bom
intérprete
O que será de nós
Sós e tateantes
Em nosso pobre
entendimento?
Igor Zanoni
Quando nasci
O sol havia
nascido há muito
Há bilhões de anos
Ninguém poderia
nascer sem o sol
Em nenhum momento
do mundo
Mas quando o sol
se for
E levar da terra a
sua luz
Eu terei morrido
há muito
Há bilhões de anos
Todavia, jamais
haverá no mundo
Uma morte para
todos decisiva
Sem que o sol
morra antes
Nosso velho sol é
sempre
Nova vida
Enquanto viver
Igor Zanoni
A visão do rio
O uniforme do
grupo escolar
O batalhão de
fronteira
Os caixõezinhos
brancos rumo ao cemitério
O ofidiário de
papai e frei Casimiro
A saia rodada de
minha mãe
A multiplicidade dos entes
Na unidade do ser
Igor Zanoni
A solidão é uma
segunda pele
A proteger do frio
encontro com a vida
Ela nasce com o
rapaz tão jovem
Procurando seu
lugar
Entre as relações
da casa paterna
E o pequeno mundo
da rua
Os amigos também
jovens
A estranheza do
que vivem os pais
O espaço minúsculo
de criança
E no entanto
difícil
Do qual se precisa
preservar
Auscutar entender
Suportar a
angústia do que o rodeia
Igor Zanoni
Buscar a plenitude
é ilusório
Talvez os santos a
alcancem
Mas às vezes ela
nos toma
Em uma relação com
o amor
Quando um sério
problema é resolvido
E podemos
descansar
Assim o corpo
relaxa
Os olhos quase se
fecham
E a vida nos
parece tão bem-vinda
Igor Zanoni
Eu tinha uns dez
anos
Naquele dia lembro
bem
Saí de casa e me
dirigi à rua
O sol à minha
frente
Eu sozinho
Com uma solidão só
minha
Diante da
perspectiva
De viver tão
comigo
Sob o sol que
batia à frente
Igor Zanoni
Difícil crer em
Deus
Mas cremos nos que
nos rodeiam
E agem com o
coração em Deus
Logo de certa
forma
Cremos também
Ele é fruto de
nossas relações
Ele está no meio
de nós
Para que desejar
uma crença
Além dessa?
Igor Zanoni
O sábado passa
suavemente
As crianças hoje
não têm aula
E brincam de bola
na calçada
Eu comprei frango
assado e maionese
E minha mulher se
prepara para a missa das três
Tudo é calmo e
caseiro
Mas a avó que
sente o friozinho de Curitiba
Comenta na falta
de outro comentário
Meu Deus! Quanta
correria!
Igor Zanoni
Nem sempre é
possível
Prover ao que nos
falta
Viver é uma falta
crescente
Viver é perder
Até aquele dia em
que tudo
Vai se perder
Melhor acostumar-se
Com o que temos
nas mãos
Melhor ser sóbrios
E guardar um lugar
na alma
Para o que se foi
Igor Zanoni
Já no ensino
fundamental se aprende
Para nunca mais esquecer
O alfabeto a
aritmética desenho
Mais tarde maravilhas
como o princípio
Dos vasos
comunicantes a gravidade
O sistema solar
No segundo grau se
aprende as equações
De Maxwell
O cálculo
diferencial a tabela periódica
E quando se faz
uma graduação
Aprende-se que agora
se é um jovem adulto
Que você ganhou
uma nova etapa na vida
Igor Zanoni
Flashes de minha
vida
Eu me sinto
sozinho em mim
Desloco-me em
qualquer atividade
Saio de casa e
sinto o sol
Não posso
compartilhar o que sou aí
Tenho uma
infinidade desses flashes
Não sei quantos
nem bem quais são
Momentos
narcísicos perdidos em minha alma
Que súbito
recupero como eu mesmo
Como encontro ou
saudade
Momentos
interiores em que minha alma
Está só com
consigo
Com o mundo
Plena calma por
exemplo
Me deslocando na
rua como um ser
Completo e sozinho
E que não quer
outro
Quer apenas
habitar esse mundo
Que de repente me
vem
Igor Zanoni
Eles eram
inseparáveis
Compartilhavam suas
ideias
Seu tempo quase
todo
Ouviam jazz
fumando um
Iam à praia em
Bertioga
Seus amigos eram
os mesmos
Namoraram as
mesmas meninas
Achavam que eram
grandes amigos
Não perceberam mas
na verdade
Eles mantiveram um
longo flerte
Igor Zanoni
No fundo do jardim
Asfixiado por
damas-da-noite
Eu e meu amigo
preferido
(como ele outro
jamais tive)
Fumávamos
Hollywood sem filtro
Ouvindo Miles
Davis
Isto aconteceu
centenas de vezes
Mas agora é
impossível
Como é impossível
uma aurora
Nascer à
meia-noite
Uma primavera ser
eterna
Uma amizade jamais
findar
Ao menos por
sermos mortais
Igor Zanoni
A alma não é caótica
Sentimentos
vivências antigas
Saltam em mim sem
que saiba bem
Seus motivos
O porquê de tais revivências
Há milhares de
atos físicos
E emocionais em
minha vida
Submersos ocultos
Mas súbito me vêm
Convocados pelo
momento
Há em mim um
quebra-cabeças
Com milhares de
peças
Que de repente
surgem
Fazem sentido
E ordenam por
instantes meu viver
O doutor me fala
em inconsciente
Mas não é bem nada
disso
Minha vida se
organiza e se perde
Mal sei como
Mas nela sou esse
ser envolto
Em tanta
perplexidade
Como se mil
pássaros brancos
Despertassem minha
psique
Depois me
deixassem
Igor Zanoni
Os homens de todos
os dias
Vivem a vida de
pés no chão
Trabalham fazem o
rancho
Olham os filhos
Em nada há
transcendência
Exceto quando aos
sábados
Às sete da noite
vão à missa
Com sua esposa
Igor Zanoni
Tenho uma ideia um
pouco vaga
De onde fica a
Croácia
Mas vejo na tevê
sua seleção de futebol
Sob o comando de
Luka Modric
Com o patrocínio
da Coca e da Visa
Bom, eu também
tomo Coca
E como todos tenho
uma dívida
Com o cartão da
Visa
Isso me aproxima
da Croácia?
Igor Zanoni
Minha oração
cotidiana
É minha confissão
Minha autoanálise
Assim entra Deus
Em minha vida
Como parceiro
Ao qual faço
transferência
E cujo amor
desenho
No diário pensar a
vida
Igor Zanoni