quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Luto


Sucessivos lutos somam sentidos

Um homem idoso revê o que viveu

Pelas lentes de quem é saudoso

Tantos familiares tantos amigos

Tantos queridos tantos lugares na vida

Eles criam um longo corredor

Com paredes cheias de traços

Se foi só quando criança

E se sentiu bem

Também agora será só

E se sentirá bem

Não feliz o que pouco se é

Mas tranquilo sonhador sóbrio

E se uma lágrima cai dos olhos

Ora o que há com você meu caro?

Perguntará com surpresa

 

                                                             Igor Zanoni

  

terça-feira, 29 de setembro de 2026

As mãos dadas


Cigarros

Silêncio

Pensar o que você pensa

As mãos dadas

Você reparou?

Nunca estamos sós

Nosso longo tempo juntos

Não se vá antes de mim

Nem depois

Ascenderemos às nuvens

Juntos

As mãos dadas

 

                                                             Igor Zanoni 

domingo, 27 de setembro de 2026

Sonho


1

O sonho me acordou

Que susto!

2

Bewusstseinswahrnehmung

Pra você também!

 

                                                             Igor Zanoni 

sábado, 26 de setembro de 2026

Pierogi


Originalmente Curitiba significava

Terra-de-muito-pinhão

Mas como se formaram aqui

Grandes colônias polonesa e ucraina

E elas gostam muito de pierogi

Curitiba passou a significar

Terra-de-muita-batata

 

                                                       Igor Zanoni

 

  

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Estações do ano


Curitiba tem duas estações

A das chuvas e a do frio

Que vêm sempre juntas

Quando entre o Natal e o Ano Novo  

O sol aparece

Os nativos descem para Matinhos

Gastando o décimo-terceiro

 

                                                     Igor Zanoni 

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Nunca te vi


Nunca te vi

Mas guardei intacta

Minha saudade antecipada

Quando vier saberá

Que aqui está o seu lugar

Sua paz seu conforto

O amor que esperava

Venha não importa

Com que demora

Eu sei esperar

Sou um homem paciente

Porque o amor

É paz e paciência

 

                                                                              Igor Zanoni 

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Amizade


Andamos lado a lado com um amigo

Por muitos anos

A amizade permite camaradagem

E um anel de calma solidariedade

O amor é mais rigoroso

Exigente conosco

É claro que aqui os laços são outros

Raras vezes o amor admite

Uma boa amizade

 

                                            Igor Zanoni 

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Em nossas mãos


O Reino de Deus não está aqui ou ali

Ele está entre nós

Nas relações que tecemos

Melhor: naquelas que forjaremos

Não apenas ao construir

Uma sociedade boa

Mas também uma em que a oração

Não será um mero implorar

Mas sobretudo agradecer

O coração a um tempo

Alegre e reverente

 

                                                                        Igor Zanoni 

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Morada


Sabemos logo que uma casa é habitada

Ao entrar na sala e perceber

Um paletó jogado sobre o sofá

Ou copos sujos na mesinha de centro

Com certeza resquícios da noite passada

Ou se na cozinha os pratos estão ainda na pia

Se no quarto a cama não está feita

Uma casa assim fala da vida dos seus moradores

Ela é apropriada nesse uso denunciado

Pode-se dizer que ela mesma vive

E já não é uma casa mas um lar ou uma morada

 

                                                             Igor Zanoni 

sábado, 12 de setembro de 2026

Minha esposinha


Minha esposinha acorda cedo

Vai à primeira missa do dia

Depois cuida da sua mãe

Que é muito idosa

Vai ver como está seu filho

Se precisa de alguma ajuda

Seu coração é cálido

E está sempre bem-disposta

Também cuida do que ganhamos

E vai comigo à feira

Minha esposinha é discreta

Não conversa sobre o que ignora

Sua virtude é a bondade

Calma quieta sempre presente

 

                                                  Igor Zanoni 

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

A melancolia


A vida é imensa

Ilimitada

Quando um poeta a canta

Mas há os que reduzem a vida

A algo mesquinho

Estes não sabem do que se trata

Anos se passam na modéstia

Dos dias

Assim vivem

Que pena

Mas talvez haja algo infinito

No menor dos seres

Apenas ele não sabe

A isso se chama melancolia

 

                                                       Igor Zanoni 

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Ele se foi


Embora há muito ele se tenha ido

Custo a crer que se foi

Que não está sempre comigo

Meu sonho com ele é nítido

Vejo-o ainda jovem

E a aura que desprende

É a do meu amigo

Há alguém que um dia se vá?

Não creio

Creio firmemente na vida eterna

Daqueles que amamos

Com doçura entretanto

Não com a amargura

Que os infelizes dedicam

Aos seus mortos

 

                                                       Igor Zanoni 

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Temporadas no inferno


Temporadas de ciático

Insônia

Síndrome do pânico

Enxaquecas

E sempre o mesmo desespero

Curaram-me meus psi pacientes

Algumas bolinhas

E a meditação zen

Não sorria

Não é o caso

Foram temporadas no inferno

 

                                                           Igor Zanoni 

terça-feira, 8 de setembro de 2026

A poesia cotidiana


A poesia está nas pedras

Das calçadas que as pessoas

Percorrem

Sem carros ou motos

Apenas com seus corpos

Vemos as pessoas aí

Admiramos

A poesia escapa dos corpos

Da troca eventual de palavras

Dos toques eventuais

Assim se descobre e vive

A poesia cotidiana

 

                                                        Igor Zanoni 

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Álbum


Criança ainda, ganhei de meu pai

Um álbum de figurinhas

Ali havia povos originários

Apaches esquimós araucanos

Habitantes da Terra do Fogo

E outros para os quais o álbum

Eram quase as cinzas

De um antropólogo

 

                                            Igor Zanoni 

domingo, 6 de setembro de 2026

Sensibilidade


Eu era sensível a tudo que me dizia

Às vezes me sentia feliz

Às vezes me entristecia

Não que o que me dizia

Fosse em extremo pertinente

Mas era o que me dizia

O que à sua vida pertencia

Outro me dirá : ora, você a amava

Esse era o seu encanto

Mas eu era inocente disso

Disso eu não sabia

O amor que não se sabe

Se torna vulnerável

Por isso ela mesma

Ignorava se me alegrava

Ou fundo me feria

 

                                                                                    Igor Zanoni 

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Dizer a poesia


Muitos vivem a poesia

Sem saber dizê-la

Um poeta recolhe os traços

Da poesia espalhada no mundo

E dá a ela uma forma em palavras

E música

É assim que a poesia da vida

Se revela

Não basta vivê-la

É preciso dizê-la

 

                                                                      Igor Zanoni 

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

O gato de Cheshire


Ainda que os limites da memória

Sejam vastos

Temos em muitos casos índices

De uma pessoa um momento

Um acontecimento

Como se a memória não pudesse

Dar conta de todo o lembrado

Esse rapaz por exemplo

Lembro muito bem seu sorriso

Tudo o mais se esfuma

O lugar a vestimenta o assunto

Chamou-me atenção o sorriso

Como o de um gato de Cheshire

 

                                                                            Igor Zanoni 

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

A importância da paciência


Ela vê muitas pequenas tarefas

A serem vencidas até

Sabe-se lá quando

Sabe o quanto é importante

Estar calma e equilibrada

Neste tempo indefinido

Sabe o quanto essas tarefas

Vão demandar do seu amor

Embora às vezes se irrite

Então para se manter bem

Ela se apoia em Jesus

Viver bem é para ela

Estar apoiada nele

O homem-Deus gentil

E paciente

 

                                                                Igor Zanoni 

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Atlas


Uma relação é feita

de pequenos acordos

Para que o cotidiano

 e seus impasses

se  mantenha

mas subjacente a tudo

é preciso que o amor mesmo

se mantenha

uma relação deve ser

amorosa e cooperativa

mas há de haver também

o momento dos passeios

das férias das viagens

no qual a maravilha do mundo

se sobreponha à missão

de sustentar como Atlas

o mundo como o conhecemos

 

                                                                              Igor Zanoni