terça-feira, 17 de junho de 2014

Newton


a foto do rosto de um amigo nos coloca de forma privilegiada e reflexiva diante de momentos que guardamos como os seus sinais, por exemplo as ocasiões em que aquele pequeno entreabrir da boca surge em uma conversa e o que implica, humor, ênfase, ironia. ainda que na foto ele procure uma expressão adequada e enaltecedora de si mesmo, o si mesmo se compõe para nós em recursos expressivos, talvez para ele ignorados e agora mais claros para nós mesmos. a foto se desarraiga, se transborda, trai ao dizer uma certa verdade, a nossa mais que a do amigo. o mesmo ocorre com as coisas que podemos escolher, nossa classe social, nossa profissão, se a temos, nossa idade se inscrevem nelas. mas também as que, na profusão de necessidades que nosso mundo cria como rendosos cogumelos, e em especial, as que na nossa vida emocional podemos escolher mais livremente, e que, por alguma razão, tiramos do mundo para as recolocarmos nele, com alguma ilusão, como nossas coisas e nosso mundo, e assim dizermos como nós somos. desta forma escolhemos certa camisa, um casaco pesado, um sapato e, já fora do âmbito de uma foto mas ainda, digamos, na sua atmosfera, a música que preferimos, as moças que nos atraem, o pendor para esta ou aquela visão da vida. a foto mostra o que estamos preparados para ver nesse rosto. ela fala antes e de imediato de nós mesmos, desarraigados, traídos. percebemos tudo isto o tempo todo, e sofremos ou somos felizes, buscando nossa saída e nosso mais concernente espaço.


                                               Igor Zanoni  

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Aula


1
por que se insiste em dar aulas se elas não funcionam, impedem a criação nos jovens de visões originárias de sua vida neste mundo ao qual pertencem a seu modo e deveria caber a eles a decisão de como percebê-lo e que interação seria para eles interessante e pertinente?

2
por que se insiste em professores se estes assumem sobretudo a tarefa de ser portadores de um estoque do qual não se libertam em toda a sua vida e de transferir tal estoque a alunos como um tesouro que lhes daria imunidade e passaporte em um mundo que estes não podem recriar ou mesmo entender a partir daí?

3
por que se insiste em escolas se estas são instituições mais ligadas ao negócio do prestígio social que à descoberta aberta, comunitária e dialógica da qual todos sem exceção deveriam participar?


                                                Igor Zanoni

domingo, 15 de junho de 2014

D'us

o Senhor gosta de se ocultar de nós, mesmo seu nome não conhecemos e o modo como o referimos não pronunciamos. para nós Ele só pode ser o absolutamente Outro. e isto é o que nos convém, para que possamos ter desde logo a percepção de que seja o que façamos por nós, pelos outros, pela maquinaria insensata do mundo, nunca será bastante, não será o que precisa ser feito, e não chegaremos longe filosofando sobre o mundo ou tentando transformá-lo. se formos demasiado autoconfiantes ergueremos nova e ridícula, infinda Torre de Babel. qual é nossa existência, o que nos cabe nela senão alienação e trabalho vaidoso que enchem bibliotecas da Babilônia? quando percebemos esta alteridade cessamos de nos justificar, de argumentar, de mudar nossa sorte. o Senhor não está disponível para nossas razões e apelos. Ele é indisponível para nós quando o buscamos dessa forma, muito mais quando pensamos ser possível ignorá-lo ou fugir de sua vontade. nosso trabalho importa mas como índice de nossa insuficiência, da nossa arrogância, se ele não levar em conta como importa antes a sua Graça.


                                                                          Igor Zanoni

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Pétala


a pétala se desprendeu
ainda úmida e noturna
anúncio de uma rosa
agora inconclusa
nesta falta que é a pétala
mas todos estes são destinos
como quaisquer outros
difícil saber de forma clara
sobre tais acontecimentos
sabemos é verdade que em nós
também uma rosa se perde
e uma saudade inexata
nos faz incertos como a caligrafia
de um garoto pequeno
melhor tentar descobrir
o que a ocasião pede
enquanto voamos tão leves
no dia que começa

                                                               Igor Zanoni

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Pastel

desde o centro dito “histórico” de Curitiba, espalhando-se por avenidas que de largas e dinâmicas rápido se tornam mesquinhas, o trânsito congela as pessoas no tempo e no espaço, o dia se torna previsível e tedioso, o humor transmuta-se em revolta dos que se julgam ainda com direito de ir e vir mas nem vão nem vem, o que aos poucos percebem. o ar é uma mistura saturada de gases fósseis como a civilização, ainda que civilização pouco há exceto como farsa, as roupas a pele o cabelo tingem-se neste fog que sequer é marca de progresso, se ainda esta palavra cabe no mundo, mesmo onde se afirma a construção do socialismo, em Pequim digamos, ou onde jamais se pensou a sério nisto, Moscou ou Nova Iorque, muito menos entre nós onde só se afirmou desde o princípio uma monstruosidade que só deu à luz a si mesma, que prescinde a história se usarmos o termo com rigor. nas margens estreitas onde se incrustam pequenos negócios, pouco variados, uns parecidos com outros oferecendo mercadorias parecidas, como uma vasta coleção pobre e monótona, em exíguas lanchonetes mulheres cansadas e filhos ainda achando graça em tudo descansam por cinco minutos  em torno de refrigerantes com pastel e sachês de maionese, catchup e mostarda. o melhor da viagem é o lanche, o poder sentar-se, os meninos por ora quietos, e percebe-se com isto como as pessoas pedem pouco, suportam demasiado, são confinadas em espaços de sensibilidade, para não mencionar, é claro, o espaço do transporte coletivo, pois nos ônibus difícil é entrar ou encontrar com cotoveladas um banco para dormitar até o Xaxim, a CIC, Uberaba, Campo Comprido, Pinheirinho e outros lugares mais desassistidos para os quais há sempre ônibus, embora falte o resto.


                                              Igor Zanoni