quinta-feira, 25 de junho de 2015

Culto



domingo cedo e quarta à noite muitos na vizinhança vão ao culto para que o pastor pergunte mais uma vez se nós aceitamos Jesus em nosso coração como nosso salvador pessoal. lembra-nos  mais uma vez que Ele foi enviado por Deus para morrer em nosso lugar, antes condenados à morte por nosso pecados. o Senhor enviou seu único filho para dessa forma nos salvar, nós que de modo algum temos qualquer merecimento. há sempre qualquer que seja a igreja a figura de um jovem loiro na cruz sangrando, que suscita nosso amor e gratidão, já que por meio dele fomos redimidos do mal, em alguma medida agora e completamente quando ele voltar entre anjos nas nuvens e separar os que aceitarem seu sacrifício e a luz e os que continuarem a ser filhos das trevas. todos se comovem, e a família volta para casa confortada e unida em uma inabalável certeza. estes são a descendência inumerável como a areia da baía de Paranaguá dos pioneiros da Vilinha do Bairro Alto.

                                                             Igor Zanoni

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Só o princípio



um dia a tristeza que ronda o mundo desde a queda concentrou-se sobre o pequeno e gelado Uruguai, justo na cabeça do escritor mais triste que jamais existiu, Juan Carlos Onetti, autor do célebre “ Poço”, não leia se ainda não leu, não se jogue em um poço você também se a curiosidade for maior que a prudência. mas como um homem amoroso, escreveu também “Tão triste como ela”, não leia se for uma moça triste. nunca tive uma filha, e minha única neta é alegre como apenas bailarinas de street dance podem ser, mas tenho notado ultimamente muitas moças tristes na vida das minhas retinas indignadas. hoje cedo, na sala  vazia do final do semestre, meu amigo L. tomou o tempo para falar de seu assunto predileto: o movimento punk, o anarquismo, a poética do Sex Pistols e do The Clash. havia uma moça bem jovem, deitada sobre duas ou três carteiras, que começou sua educação política nos recentes eventos do Centro Cívico em Curitiba levando balas de borracha e ganhando uma tristeza inesperada. em certo ponto da conversa fomos andando para o elevador e eu notei um cordão de metal gingando na calça da moça. meu amigo comentou: “Ela virou punk também”. bem, pensei, não é tão sério então, os punks são divertidos. mas não tenho certeza. talvez seja prudente inserir street dance no currículo dessas jovens que vivem nas “Cidades rebeldes”, o triste best seller de David Harvey.


                                                                          Igor Zanoni

terça-feira, 23 de junho de 2015

Correspondência



talvez isto seja incompreensível para muitos hoje, mas logo que aprendi a ler e escrever passei a manter uma correspondência com minha avó que durou muitos anos. eu morava em Campinas mas tínhamos vindo do Rio com meu pai que era oficial do Exército, minha avó passava as férias conosco ou eu ia para lá com tio Newton, que possuía um escritório em São Paulo. no intervalo, eu tinha um motivo para diminuir minha ociosidade e meu tédio escrevendo cartas que nada diziam de essencial, enviavam mensagens banais sobre nós e perguntava sobre a saúde de todos por lá. o importante era comprar papel de carta, havia de vários tipos e preços, envelopes comuns brancos ou com bordas listradas verde e amarelas, e um aviso “Via aérea-Par avion”, para que ficasse claro que o Correio entregava suas encomendas através de transportes rápidos e eficientes. eu  começa com um clássico : “Querida vovó, abençam”, pois sequer sabia escrever um pedido convencional de benção, que todas as crianças pediam a seus pais e avós. mas ela respondia com um “Deus te abençoe”, falava um pouco de si, da crônica enxaqueca de meu avô e copiava versículos bíblicos, em geral retirados das cartas de Paulo a Timóteo, com muitos conselhos sobre como um jovem deve viver. sei de cor esses conselhos, e Paulo se tornou meu herói, maior que Jesus, dando-me um indelével vezo protestante.


                                                                            Igor Zanoni

Coragem



então eu pude ser modesto
mas seguro abrigo
mesmo quando me vergava
como as árvores do Taquaral
e parecia que em casa nunca estaria
tão frio era o vento
não sei como pude cuidar do que veio
como você pôde estar tranquila
e deixar que eu andasse tão só
pela noite e pelo dia
fazendo isto e aquilo apenas porque era preciso
nunca sereno antes assustado
 quantas contas de luz e de água
um disco de João Gilberto
nas noites de cólica do pequeno
a rádio Eldorado no silêncio do primeiro capítulo
do Velho Barbas
e as coisas todas que eu não entendia calado
feliz quanto acendia a fogueirinha de papel
mesmo que não fosse assim possível
amor carinho qualquer sentimento
exceto a coragem e sua lâmina fria

                                                             Igor Zanoni


segunda-feira, 22 de junho de 2015

Calado

eu tenho ficado quieto esse tempo todo porque não possuo mesmo nenhum script para mim e para você, em algum cenário, nenhum argumento, nenhuma demanda, há sempre algumas frases costumeiras que poderia tentar mas sinceramente não sei o que esperar de volta, porque você deve ter uma série de pensamentos prontos e convenientes, que podem não ser os mais íntimos ou verdadeiros, mas podem muito bem ser os mais adequados para o momento, para te proteger de alguma possível invasão, de uma ligação ambígua ou incerta, ainda que eu saiba de um carinho seu que permanece, que com calma eu poderia reavivar, com paciência, em um momento adequado, eu confio nisto por isso escrevo desse modo agora, mas como eu poderia inventar esse momento? eu já fiz mais do que era esperado ou sensato e você foi além do que pensava, sei que em algumas ocasiões você fica relaxada e brinca, e uma parceria surge, andando e conversando sobre o que nem sabia que existia nesta figura que você é às vezes, mas como isso foi raro ainda que bom, como parece distante, ainda que para mim não esteja de modo algum distante, porque sem nenhum motivo convincente não quero sair de perto, quero apenas ver, um exercício de admiração, de carinho sem retorno, uma garrafa pet vazia de refrigerante, sem nenhum valor.


                                                                     Igor Zanoni