terça-feira, 6 de março de 2012

Feira das Profissões


1

como se diz em um curso de inglês,
há alguns erros mas continue praticando
nos vemos de novo

2

as profissões não dominam
completamente um sujeito
eu mesmo já vi dentistas interessantes
advogados pessimistas
professores lacônicos
padres que cantavam de fato
e pedreiros que trabalhavam
arrumados e de sapatos engraxados


                                                                     Igor Zanoni 

segunda-feira, 5 de março de 2012

Fundamentalismo


Certo grau de fundamentalismo deve existir em toda crença, não só religiosa, porque ele pode apoiar a razão e mantê-la funcionando. No catolicismo ele existe mesmo nas suas formas mais racionais e intelectuais, sob o adágio “creio porque é absurdo”. Mas ele não pode  desandar num supersticioso rancor contra outras formas de ver e entender o mundo e o lugar do homem nele. De vez em quando leio teólogos. Nestes últimos dias andei relendo o grande Pietro Ubaldi, espantando-me outra vez com sua disposição em ver como se pode entender a fé usando concepções da física moderna e da biologia. Esse cientificismo não o fez perder a mais tradicional fé na Eucaristia. Ele conciliou tudo  isso com o mais puro franciscano que foi,  naquela tradição que na minha modesta preferência é a corrente que mais admiro no catolicismo. Mesmo o mais humilde, em termos escolares, dos fiéis envolve sua fé em fórmulas e ritos ao mesmo tempo existenciais e, para os outros, pouco inteligíveis. Conheci uma moça que se chamava Macedônia, porque seu pai, procurando um nome sacro para a mais nova filha, abriu o livro de Atos e leu quando Paulo não sabia o rumo a tomar e em sonhos um anjo indicou: “Passa à Macedônia”. Ela se ria do seu nome, mas respeitava a fé dos seus pais. No início dos antibióticos, a nova maravilha fez muita gente salva nos primeiros dias por eles ganhar nome de remédio, às vezes complicados. Meu pai mesmo deu ao seu segundo filho o nome de Alexander, em homenagem a Fleming. São orientações da vida, que servem para guarda-la, tomara que não a ponham a perder.

                                                     Igor Zanoni  



Meio amargo

 
amores amargos
nos deixam com um único tema
quando todos se esqueceram do assunto
ele retorna na conversa
não há dermatite pior
coça coça coça
depois um belo dia passa
e perguntamos:
para que tudo isso?
Senhora Nossa!

                                                      Igor Zanoni

domingo, 4 de março de 2012

“Isto é só o fim...”



Nossa economia mundializada já perdeu há décadas sua funcional “destruição criadora” de que falava Schumpeter, a capacidade de se renovar dinâmicamente em suas estruturas produtivas, técnicas e de mercado, oferecendo ao público a glamorosa figura do empresário inovador. Ela se aliou à destruição do planeta, a guerras e regimes intolerantes se resolvendo numa crescente militarização da sociedade, à corrupção e ao desrespeito por valores culturais que mantiveram estáveis por séculos sociedades ao redor do globo. Ele finalmente se reduziu a mostrar a face crua do dinheiro como o valor mais precioso. Só se expande através de ciclos de endividamento que se resolve em depressões e regressões políticas e sociais contra as quais a mobilização social nada pode fazer. Tem a seu lado interesses de estados colados a grandes e poucos bancos e indústrias que dominam as decisões. Agora mais que nunca contrato é contrato, não se perdoam dívidas, os bancos aos quais se deve são pagos pela finança pública, antes funcional ao desenvolvimento econômico e social. Essa é a ideologia, acabou a social democracia, acabou o progressismo e o reformismo, para quase todos o fim está próximo. “Isto é só o fim, é só o fim...”


                                                                 Igor Zanoni

sábado, 3 de março de 2012

Time

 
eu sempre torci por time pequeno
é difícil é para poucos
a maior conquista é não ser rebaixado
títulos são raros inexpressivos
jogadores melhores saem ainda no juvenil
vive-se como historiador
de façanhas d’outrora
quando o capital ainda não havia assumido
essa forma avassaladora no esporte
torcer por time pequeno
é uma opção política
é uma ação afirmativa
nossos craques ninguém conhecem
morreram de cirrose
os jornais amarelos falam de placares
que ninguém esperava
quando nem Pelé assegurava
uma esmagadora vitória
porque do lado de cá havia
Roberto Pinto Dicá Nenê Afonsinho
viva os heróis brasileiros
mas agora somos figurantes
no bloco do grupo D

                                                     Igor Zanoni

Sonho

Sonho

1
acordo e percebo
a foto de minha mãe no quarto
e já não sei se a sonhei
ou se a estou sonhando agora
entre o sonho e a vigília
há um gradiente de estado mental
não uma distinção de natureza

2
não percebemos em nosso corpo
senão o que dói
em mim sofre sempre a alma
encerrada nas singularidades
do que é e não sei porquê


                                                          Igor Zanoni

sexta-feira, 2 de março de 2012

Vizinho


Eu tenho um vizinho exemplar. Era bancário do Bamerindus, formado em contabilidade, pegou um PDV com a compra do banco pelo HSBC, quitou a casa e pegou umas aulas como bico na FAE, uma escola privada de economia e negócios. Na FAE ele aceitou fazer um mestrado de final de semana em outra faculdade privada em Santa Catarina, que emendou com o doutorado. Depois houve diversos problemas internos no trabalho e ele pegou umas aulas na PUCC, no departamento de Economia. Trabalhou muito, um exemplo para os colegas, numa escola que paga pouco e exige muito. Ele e sua mulher não podiam ter filhos, mas com esforço e paciência fez um longo tratamento e ganharam uma filha significativamente chamada Victória, hoje com 14 anos. Depois veio o Breno, com seis anos atualmente. Aumentou seu trabalho e sua renda dando consultoria na Associação Comercial e sempre militou no Conselho Regional de Economia, ganhando visibilidade. Acabou convidado para ser o novo chefe de departamento de economia na PUCC. Trocou o carro velho por um Vectra novinho, depois comprou um Renault enorme. Nos finais de semana vão aos cultos na igreja batista do bairro. E os feriados e férias propriamente ditas passam em um apartamento comprado na praia, em Caiobá.  Tudo isso faria dele um herói para mim, pois fez muitas coisas que eu não faria por faltar-me gosto e estômago. Mas o que me impressiona no miúdo do cotidiano é vê-lo estacionar os dois carros na garagem pequena do sobrado no nosso condomínio. Além de tudo, ele dirige bem, não bate o carro, não bebe, é controlado e está casado já há uns vinte e cinco anos com a mesma mulher, que cuida de tudo para que o guerreiro lute e descanse depois. Que paciência a dos dois!


                                                                    Igor Zanoni