sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Paciência



a paz e a paciência
podem não nos ajudar
a buscar o que imaginamos
portal do tempo e dos seres
podem minimizar a angústia
podem nos colocar à margem
da sorte comum
ninguém merece de nós
senão paz e paciência
mas como as faremos parte de nós?
as pessoas muitas vezes trazem para fora
nossa dor e nos fazem sorrir
não posso não quero
andar longe dessas pessoas
quero dar a elas minhas mãos
quero suspender todo julgamento
há pessoas cuja vida encanta
se as trazemos para perto da nossa
história
mais do que a reconhecemos
quero reconhecer nas pessoas
as possibilidades que antevi
mas não pude sempre cumprir

                                                       Igor Zanoni

                                                

Mudança


mesmo tendo mudado
de muitas formas e muitas vezes
na vida que cumpri
o mundo mudou mais
do que qualquer um poderia prever
mais do que eu poderia fazer a respeito
para diminuir minha pena
conseguir um princípio de ação
um pensamento menos exigente
qualquer pensar demanda muita sofisticação
e fornece poucos meios para a ação
as pessoas também se perdem
criam fantasias virtuais
sua riqueza é virtual
mas não a da internet ou do celular
sermões temos bastante
mas um dia veremos de novo
horizontes?

                                                                           Igor Zanoni

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Rua XV


no calçadão da rua XV, centro de Curitiba, ao meio dia abrem-se centenas de pequenos restaurantes que um ticket refeição pode pagar, destinados a toda essa gente que lota os prédios em milhares de funções. lojistas, atendentes de call centers, vendedores em todos os ramos do comércio popular, muitos em financeiras, as moças que trabalham na farmácia, no sacolão e verduras, nos sebos, nos supermercados, compõem uma classe dos que ganha mil até mil e quinhentos por mês. um pouco mal vestidos, mas não miseráveis, feios, deselegantes, um pouco, sem muita escolaridade, sem muito futuro. um futuro atado ao do país, do seu grosso populacional, não de suas elites que sempre é lógico irão estar muitíssimo bem. amontoam-se em restaurantes pequenos, combinam se encontrar, estão conversando, alguns namoram. há restaurantes bem mais modestos, pela metade do preço, nos quais crianças até três anos não pagam, e os chineses de todo os tipos. no fundo há as pastelarias com fanta. em meio ao meio dia há moças mais bem ajeitadas, com óculos escuros, os cabelos ajeitados, que andam devagar, como se coubessem e não coubessem em Curitiba ao meio dia no centro. ou moços que vem de empregos nos buracos da prefeitura ou do estado, essas instituições que nos moem junto com os bancos e os jornais, com a televisão e outras coisas que sabemos por alto. mas Curitiba se mistura pouco. é altamente segregada. quando vejo uma moça fora dos padrões, com um digamos estudado bom gosto, pergunto quantos dentes ela arma ao andar pela rua XV no calçadão onde também estou.

                                                           Igor Zanoni

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Subjectum


sejamos insistentes
mesmo quando sem dentes
sejamos irreverentes
sejamos avidamente
sejamos imanentes
e transcendentes
sejamos mais o alfa que o ômega
um alfa inteiramente novo
sejamos um ovo
da história cósmica nascente

                                                     Igor Zanoni

Segundo


entre um segundo e outro
há uma decisão incalculável
é preciso dar a resposta conveniente
para não sair do jogo
entre um pensamento e outro
há uma lógica que age
um cálculo instantâneo
para preservar o que desejamos
enquanto relaxamos na vida
vendo Django ou lavando louça
como um sensei ela aprimora
sua técnicas e seus objetivos
é preciso decidir entre ficar no jogo
ou abrir mão
não estamos jogados na vida
tecemos com ela um duelo
enquanto nos preservamos
até que algo nos abandone
e sejamos livres

                                                     Igor Zanoni

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Mundo


por que nós que nos amamos tanto
saímos por aí no mundo
para manter relações tensas à distância
mas que como as ondas
viemos dar às mesmas praias
catando cocos para sobreviver
e enviando mensagens em garrafas
de volta para o mar
por que não viramos para nós mesmos
vendemos o que temos
como os primeiros cristãos
e compramos um terreno para fundar
uma cópia de um mundo
mais próximo de nós
e menos perecível?

                                                       Igor Zanoni

Morte e vida severina



Hoje assisti no canal Futura um desenho encenando o poema Morte e vida severina de João Cabral de Mello Neto, um dos mais importantes do autor e da literatura brasileira. O desenho segue com fidelidade todos os diálogos do poema, através da viagem que Severino faz por Pernambuco desde o agreste até os mangues de Recife, procurando em cada lugar um trabalho, para descobrir que os trabalhos disponíveis eram ligados à morte, carpir por um morto, ser coveiro (há aí uma bela imagem de como os canteiros dos cemitérios reproduzem as divisões sociais) até chegar á pergunta se não era melhor desistir da vida já que a morte impregna a paisagem. A resposta obtém de um Severino como ele, isto é, pobre e diluído na multidão até ter apenas um nome genérico que designa a própria dimensão existencial do nordestino pobre. Ela vem ensejada pelo nascimento de um menino, também pobre e com a condição humana já marcada, mas que é um homem e que é expressão da vida. O sentido de uma vida severina é afirmar a vida em toda circunstância, sobretudo quando a circunstância torna o afirmar mais necessário. O desenho é em preto e branco, criando sobre a forma gráfica dos poemas de cordel. Não vi o nome do autor do desenho, que vale conferir de tão dramático e intenso, mais do que a leitura individual pode ser.

                                                    Igor Zanoni