segunda-feira, 8 de abril de 2013

Mestres


os antigos mestres buscavam
escapar ao medo da morte
e às vicissitudes da vida
cultivando por tudo a serena indiferença
ao fazer todas as coisas por igual
e desprezar toda convenção
ou hábito artificial da cidade
fugindo do desnecessário
para centrar-se no divino ser
e na contemplação
a cidade era menos opressiva
e não estava por toda parte
concedia-lhes lugar e os admirava
por fazer da busca da sabedoria
tal modo de vida
que hoje nos parece estranho
tanto vivemos a morte
e o medo cotidianos
que já os contamos na cota do dia
com uma outra indiferença  
em tudo oposta
sem sabedoria e sem serenidade

                                                       Igor Zanoni

sábado, 6 de abril de 2013

Insight


súbito me vem o insight
de que estou cativo
de irritações que posso
deixar no momento de lado
para descansar
para dormir
que não preciso levar tudo a sério
antes a maior parte das coisas
é envolta por sofrimento vão
cansaço debaixo do sol

                                               Igor Zanoni

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Indelével


o poema não te corta
como uma navalha
cujo fio mal se sente
e com sorte cicatriza
antes o faz como uma serra
deixando-te à mercê
de apoios e próteses
o bastante para nunca
cruzares só com teu corpo
sequer um jardim
em troca tão perto da vida


                                           Igor Zanoni

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Poeta


eis o poeta
talvez não goste. nem precisa
procure outro mais condizente
com as necessidades de seu espírito
mas não é sempre que se lê
um poeta de que se goste
porque há os que são necessários
embora não muito bons
não sei se é meu caso
parece que esse poema me foge
aliás isso sempre me ocorre
escrevo segundo meu tempo interno
que possui muitos compassos
ritmos e hiatos
se não tiver algo melhor a fazer
vá lá leia
mesmo pessoas distantes
encontram um parentesco distante
e até nem tanto

                                                                      Igor Zanoni


Chuva


o horizonte se dilui
como uma chuva fina
que se espera
mas que não desejamos
parece que ainda é tempo
de seguir adiante
sonhar
retomar a busca infrutífera
da felicidade
ser o que não fomos
escapar de nossas armadilhas
dizer não a tudo isso
mas já não podemos
quem sabe nunca pudemos

                                            Igor Zanoni

terça-feira, 2 de abril de 2013

Felicidade


aqui se faz aqui se paga
assim como se inspira e exala
o último suspiro
aqui se faz dívida e financia
um carro uma moto um sobradinho
por anos a fio
aqui se precisa encontrar um emprego
e manter-se empregado até velho
às vezes com vale-transporte e refeição
com sorte com um plano médico
se você não puder ficar doente
aqui se anda no fio da navalha
como só o mestre Kung Fu
talvez soubesse andar
aqui se ama por algum tempo
cada vez mais curto
e tem filhos que dão trabalho
porque sofrem
aqui a terra é bruta
as pessoas são brutas
a política é bruta
o trabalho é bruto
aqui se paga tudo isso
mesmo que não compreendamos
nosso compromisso com o que aí está

                                                 Igor Zanoni

                                                                

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Pop

Na semana passada em Curitiba o novo Toda Poesia, de Paulo Leminski, ultrapassou a venda de Cinquenta Tons de Cinza, o que mostra ou que Leminski virou pop, o que aliás sempre achei, ou que os curitibanos compram livros com um critério caótico.