sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

O homem sobre a cidade



ele se apresentava em cidades maiores atravessando uma avenida em um cabo de aço ligado no alto de dois prédios. eu ia a circos, já havia visto artistas atravessarem um espaço  menor e mais baixo, mas quase igualmente perigoso, equilibrando-se em uma corda. não sei agora se ele usava mesmo um cabo de aço ou uma corda, mas era preciso olhar bem para cima quando o homem passou sobre nós no alto da Francisco Glicério, em Campinas. isso era muito diferente de um circo, e eu segurei a mão de meu pai. vi na televisão alguém fazendo o mesmo entre dois prédios altos, parece-me que em Nova Yorque, e recordei o que havia visto. agora não sei se confundi as lembranças. soube mais tarde que esse homem havia morrido em uma de suas apresentações, já não lembro se o homem de Campinas ou o Nova Yorque. mas talvez nenhum dos dois tenha morrido, nem se apresentado tantas vezes, pois era muito ousadia. posso também ter pensado que ele morrera por assistir depois um filme sobre Houdini e o que havia acontecido em sua trágica última apresentação. não posso dar a você certeza de nada que aconteceu, se aconteceu mesmo, em uma tarde em Campinas. mas fiquei muito emocionado com isso, meu coração ficou pequenininho.

                                                            Igor Zanoni

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Inferno


1
papai era cirurgião-dentista, maestro formado pela Escola Nacional de Música, clarinetista com passagem como spalla pela Orquestra Sinfônica Brasileira na sua mocidade, oficial do Exército e teólogo autodidata nas horas livres. eu gostava muito naquela época do Concerto nº1 de Paganini, um dos poucos discos em casa, e admirava muito a virtuosidade com que fora escrito. papai comentou talvez casualmente e decerto acreditando no que dizia, que Paganini havia vendido sua alma ao Diabo em troca de sua arte. mais tarde ele repetiu um comentário semelhante quando eu examinava um álbum de Cândido Portinari. disse que quando o pintor  morreu, seu quarto cheirava a enxofre. eu era então aluno na escola dominical da Igreja Batista que havia no Castelo, onde recebera minha primeira Bíblia. logo, um alvo fácil de comentários como aqueles, ainda mais por minha confiança em meu pai, e até hoje tenho dificuldade de ouvir Paganini ou me encantar com Portinari, mesmo deixando há muito qualquer frequência a igrejas e percebendo as fragilidades da sabedoria de papai.
2
meu pai saía bem cedo para o quartel, com um ônibus que passava recolhendo os oficiais. minha mãe e eu costumávamos ficar na janela da sala e nos despedíamos com acenos. uma dessas vezes mamãe se despediu com um “Vá com Deus!”, e eu secundei com um “Vá com o Diabo!”. minha mãe me repreendeu mas não com aspereza. eu não desejava mandar mesmo meu pai para o inferno, mas queria saber como era a sensação de fazer isso com alguém. mas não me senti melhor nem pior, e perdi qualquer crença no Diabo e no inferno. desde então cultivei aos poucos e com seriedade minha fé, muito particular e individual.

                                                            Igor Zanoni

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Garotas

1
as crianças e os adolescentes de hoje parecem mais bonitos que antes. comem mais, tem um
cuidado médico melhor, os pais já não são tão grosseiros, não ficam fechados em casa e eles mesmos são mais conscientes de si. minha neta tem só oito anos, sua pele é lisinha, sem as marcas comuns das crianças de quando eu mesmo era uma criança, de varíola ou catapora. até a vacina deixava uma marca feia no braço. minha neta tem um rosto sereno, sem a vergonha dilacerante que eu mesmo tive, seu rosto às vezes parece brilhar. talvez um dia nasça uma auréola sobre sua cabeça, quem sabe se sobre a cabeça de todas as crianças.  

2
há um sebo no centro onde posso comprar CDs de jazz novos a um preço conveniente. o dono é um homem grande, fechado, que atende mal e nunca conversa. ao seu lado no balcão há uma moça nova, com uns dezoito anos e um anel de compromisso na mão direita, sempre quieta, como se temesse o patrão. mas é fácil ver sua vitalidade no rosto calmo, no corpo forte, e como deve conter sua fala, os gestos, a vontade de estar fazendo outra coisa. quando eu comprava um CD ela me olhava rapidamente e se encostava na parede do fundo, esperando o dono da loja cobrar. mas quando ele não estava ficava mais relaxada, não sorria, mas me olhava sem medo. aos poucos passei a cumprimenta-la ao entrar, de modo simples, falando por exemplo o casual : “beleza?”. hoje uma freguesa esqueceu uma bolsa, e parou mais tarde com o carro perto da calçada, gritando para dentro da loja. a moça passou o trabalho para outra e saiu feliz para entregar a bolsa. por poucos instantes fez o que devia com a alegria e a saúde de que dispõe.


                                                         Igor Zanoni

Música

quem ouve músicos
aprende a ouvir os sons do mundo
mesmo se rudes e utilitários
ouvimos o que podemos
o que esperamos em rua do centro
ou em disciplinada biblioteca
ouvimos segundo expectativas
e noções morais
o que não nos convém irrita e cansa
mas um músico paciente
encontra incessantes formas
 de nos dizer o que pode ser ouvido
além do que logo nos basta
desde que nos comprometamos
com sua música
e criemos em nós sua vida
como lhe convém
como pode suportá-la

                                                                            Igor Zanoni

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Senhoras


havia até pouco tempo no Ipardes
uma Liga de Senhoras Nada Católicas
umas polaquinhas que sabiam viver a vida
outras mais austeras mas não menos sabidas
umas agregadas em sua morenice
outras paulistanas de paulistano sotaque
outras ainda incansáveis lutadoras contra o crime
nesta Gotham City perdida é pouco
todas mais unidas que arroz num sushi
com enorme charme dizendo logo
para por mim basta já te entendi
o Estado não pôde combate-las
deixou-as enquanto tiveram paciência
em sua tenaz persistência
mas afinal se cansaram do Estado
que nunca as ouviu nem poderia
pois o Estado do Paraná
nunca disse quem é o Paraná
e o que faz a seu respeito

                                                             Igor Zanoni