sábado, 7 de junho de 2014

Rosa


durante uma estação
muitos amigos formam uma rosa
pétala a pétala
escolhem sua cor
seu ponto no jardim
quais flores devem estar a seu lado
ou definitivamente não
esta rosa é eterna
embora se desfaça
não com o tempo
não com uma brevidade inerente às rosas
mas com escolhas minúsculas
que mal nos atrevemos a perceber
ela não precisaria mesmo se diluir
hoje há tantos recursos
e a expectativa de vida das rosa
tem aumentado em todo o mundo
há sentidos na antiga rosa que nunca perderemos
mas já não queremos ou podemos
retornar à sua essência e doçura
amamos ainda esta rosa
mas a uma distância segura


                                                               Igor Zanoni

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Palavras de Jesus


vejam os cães juntos na rua
eles não são mônadas racionalistas
não adicionam na margem
unidades utilitárias
mas nem mesmo Salomão
em toda a sua glória
foi tão sábio e feliz


                                          Igor Zanoni

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Espaço


o que mais me parece característico na vida é o modo como o seu espaço se oculta enquanto ação. já cedo pela janela do banheiro vejo o céu claro e frio de outono mas não há como assaltá-lo nem o que fazer sob ele. o mundo é feito em algum lugar mas não precisa nem quer de modo algum minha colaboração. também não sei bem o que eu desejaria fazer. retomar a vida como prazer, não como trabalho. muitos buscam a seu modo isso. filósofos e cientistas sociais deixam  para nós um: isto é construído assim e assim, continuem se acharem interessante, nessa direção. mas tudo me parece urgente, hoje temos de fazer muito ao mesmo tempo. conheço muitas dívidas para com o futuro. mas antes de torná-lo já um pequeno espaço, uma comunhão no mínimo simbólica, como a eucaristia ou algo assim, o espaço é tomado pelos ruralistas e as grandes construtoras. ouvi muitas vezes: um outro mundo é possível. tomara que estejam certos. mas esta é uma parte do problema. há também muito que deixar de fazer, que esquecer, tantas obsessões inúteis e perversas. se houver esse espaço- como haverá?- meu coração sairá para o céu claro de outono, meus gestos serão mais precisos, meu corpo mais prazeroso, falarei menos, lerei menos, comerei menos, beberei menos, esquecerei as igrejas e os símbolos, e chegarei primeiro neste outro mundo, antes que seja ou não possível.

                                                    Igor Zanoni

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Frio

depois do meio dia o sol
afinal pôde fazer os mais preguiçosos
darem uma volta na quadra
um cão louco há muito por sair
cheirava a grama úmida para ver
 onde depositar o seu tesouro
ainda bem que seus pelos longos e encaracolados
faziam-no quente como um carneiro
um pouco sujo um pouco caseiro em excesso
puxava pela correntinha um cara
vestido com o que achou primeiro
meias escuras transformada em infinitas bolinhas
em suas infinitas noites
suéter sobre a camiseta mais do que casual
barbado o cabelo longo e encaracolado
com a bermuda de um pijama
cumprindo a devoção de passear o cãozinho
mesmo em um dia tão frio se pode aprender
eu aprendi que nada se parece tanto com um cão
como o seu dono
lição que se aprende logo e vira a página

                                         Igor Zanoni

domingo, 1 de junho de 2014

Casinha


era uma mocinha pequena, vivendo em uma casinha. como achasse espaço, adotou o menor e mais engraçado cachorrinho da rua. brincaram, fizeram comidinha para os dois, dormiam juntos na cama quente. ela gostou tanto que escolheu outro cachorrinho para morar com eles. enquanto se divertiam os novos amigos, ela encontrou tempo para limpar as cortinas e passar cera no assoalho. abria as janelas e assoviava. como o céu fosse sempre limpo e ensolarado, comprou na feira um canário amarelo para assoviar com ela. mas como havia espaço agora em sua alma, achou de por um aquário com um peixinho amarelo na mesa de centro da sala, depois comprou outro, e saiu para o jardim para plantar umas plantinhas.

                                                   Igor Zanoni