sábado, 11 de outubro de 2014

Aprendendo a só ser


nas apresentações resumidas de um mestre de yoga coloca-se onde nasceu, de quem foi discípulo e, mais importante, quando atingiu sua realização espiritual ou seu samadhi. até hoje nos folhetos divulgando uma palestra de um mestre usa-se sempre este verdadeiro selo de garantia: atingiu o samadhi em tal ano com tal idade. quanto mais novo mais realizado, por ser sinal de seu esforço e da pureza de seu carma. quando comecei a ler sobre o pensamento indiano há muito e outro tempo tomei a firme intenção de um dia também atingir o samadhi. depois quis atingir o satori, que acho que é mais ou menos o mesmo, ou a iluminação, nesta ou em uma vida futura. não vejo, ainda hoje, isto como uma ilusão, antes como uma fantasia ou uma forma poética de pensar minhas demandas internas. o que teria sido minha vida sem tudo isso, apesar de toda minha inquietude e indisciplina? como gilberto gil cantava, ainda busco aprender a só ser e não a ser só, mesmo que nunca aprenda, se é que isso pode ser aprendido.

                                                            Igor Zanoni

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Tartaruga

 
para passear no bairro alto, seria ótimo poder contar com uma tartaruga, exemplo ancestral de paciência, ponderado vagar, silêncio e amor a uma vida longa e protegida. exemplo também do amigo calado idealizado por Drummond em um poema entre os muitos de que me lembro mal mas vividamente.  mas claro que não se pode achar nunca nenhuma. a prefeitura não conserta as calçadas do bairro, as que existem, e o trânsito é metropolitano, e ela não teria como habitar aqui entre nós. o jair césar, antigo chefe político no bairro, talvez a denunciasse em seu jornalzinho, e não se sabe o que pensariam os padres, mesmo nos novos tempos do buen vivir. mas o principal é que se sumisse uma delas os haitianos que vieram, num gesto tão caloroso como proclamar a república que horrorizou o império e varnhagen, morar em bairro tão inóspito, seriam acusados de furto ou algo pior. o manuel, que tem uma padaria na minha esquina, disse que precisava de um ajudante e pensou em contratar um haitiano mas desistiu porque, segundo dizem os curitibanos, eles são mortos de fome. em vez disso, contratou uma mocinha evangélica indicada pelo pastor da igreja mundial do poder de deus que fica entre meu condomínio e a padaria. uma mulata jovem e bonita, magrinha, quem sabe temerosa de uma autoridade como o pastor e menos dada a aventuras revolucionárias como comer.


                                                              Igor Zanoni

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Amores impossíveis


eu gosto de ouvi-la falar porque há uma ironia e uma amargura no modo como sente sua vida, seu trabalho e suas aspirações que vêm misturadas com certa resignação e esperança , que insiste em manter para não perder talvez o prumo. poucas pessoas mostram isso tão nítido, como se me pedisse algo que eu não posso no fundo saber nem conceder e tampouco ela mesma. são assim os amores impossíveis, mas penso que todos os amores são mesmo impossíveis. apesar disso eles existem, e a terra se move.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Distraídos


1
muitos precisam de cuidado, mas poucos se dispõem ou sabem cuidar. o cuidado não precisa ser visto a partir de uma altitude espiritual ou de uma profundidade psicológica. ele deveria estar embutido em todo cotidiano, e se dissolver nos gestos comuns, apenas como outro modo mais adequado de estar na vida, para estarmos nela como nosso meio que não é natural, mas precisa ser uma natureza ao mesmo tempo recriada e renovada.

2
muitas pessoas me parecem tristes, mas talvez sejam antes distraídas.


                                                                           Igor Zanoni

                                                               

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Dança de Shiva

A dança de Shiva indica e celebra a possibilidade de transformar nosso tempo em tempo de transfiguração. O mesmo se pode ver na dança de Davi diante da arca quando a leva para Jerusalém, a passagem da esterilidade à fecundidade. Mesmo em nossos tempos o Baal Shem Tov dançava para que fosse possível passar de uma vida em fragmentos para uma vida fecunda, na matéria e no espírito, e Nietzsche não inova quando diz que não podia acreditar em um deus que não soubesse dançar. Mais do que pensar na vida futura, é preciso encontrar a vida que nos pertence agora, que perdemos, mas não toda, da qual temos nostalgia, que precisamos recordar para reaprender, para sonhar com nosso corpo, com nossa inteireza, inclusive para que haja futuro, para nós e para nosso cosmo.Isso exige beleza e movimento, os componentes essenciais da dança. 

                                                                  Igor Zanoni

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Domingo

o último domingo de junho foi estranho. o edevaldo, marido de minha irmã caçula mônica veio passar uns dias comigo, e é muito raro alguém da família me visitar. fomos ao guaíra ver a orquestra sinfônica, que apresentou o pássaro de fogo de stravinsky e uma  peça de prokofief muito bonita que não conhecia. depois passeamos pelo centro, mas o certo é que passeamos o dia todo, na feirinha, no museu e outros lugares, mas eram os idos da copa e havia jogo na cidade. o ar estava amarelado e quente, fomos atendidos nos bares como turistas, com cardápios caros em várias línguas e muitos amavelmente se ofereceram para tirar fotografias de nós mesmos para que não esquecêssemos aquele domingo, como se para isso fosse necessário fotos. os moradores de rua foram retirados do centro, alguns negros altos parecendo nigerianos abriam rápidos uma maleta que virava uma mesinha com bijuterias muito douradas, talvez chinesas, e havia polícias para todo lado. muitas corbeilles rodeavam a catedral, e soube que o bispo dom moacyr, que havia há muito realizado minha crisma, falecera e estava sendo velado há três dias, o corpo em frente à nave, bem como que seria sepultado em uma cripta na qual havia bispos e dignitários falecidos há muito. eu estava me afogando em novidades incompreensíveis  enquanto o edevaldo tirava fotos de tudo na cidade, não distinguindo entre o que para mim era essencial, supérfluo ou habitual. mas nada era habitual naquele domingo para ninguém e a cidade parecia encenar uma penosa sexta-feira da paixão. era o último domingo do semestre, após muitas dificuldades a stéfanie havia defendido sua monografia e concluído sua graduação, mas muito mais do que isso estava voltando para itaiópolis.

                                                                  Igor Zanoni