quinta-feira, 17 de abril de 2025

Um dom feminino


A melancolia parece um dom feminino

Quando lemos Sylvia Plath

Ela soube dizer o que sentia

Isso é sempre fundamental

Mesmo que bem cedo tenha desistido

Da sua vida

Quantas pessoas são presas da melancolia

E vivem silenciosas

Uma vida oprimida e cheia de medo

Quantos homens e mulheres?

Muito mais do que pensamos

Hoje é tempo de tristeza

Perdidas dentro de sua vida

Mulheres choram

E eu choro por elas

 

                                               Igor Zanoni 

quarta-feira, 16 de abril de 2025

Neurótico


Eu perguntei um dia à minha psi

Se ela tinha um diagnóstico

Das minhas aflições

Ela sorriu e disse que eu não devia

Me preocupar com isso

“você anda para cá e para lá

Às vezes vem à consulta

E às vezes falta

Mas me parece bem

Acho que você é só

um neurótiquinho”

 

                                      Igor Zanoni 

terça-feira, 15 de abril de 2025

Sears


Meu pai gostava de coisas boas

Ia sempre à Sears e comprava sapatos

Nas lojas Clark

Fomos uma das primeiras famílias

No Castelo

A ter televisão em casa

Eu pegava as beiradas do seu consumismo

Ganhei certa vez um relógio Tissot

E em outra um óculos com armação

De ouro

Mas não éramos ricos

Antes uma parte da classe média

Que se dava bem com o crescimento

Do país

 

                                               Igor Zanoni 

segunda-feira, 14 de abril de 2025

Memórias de Campinas


Havia no Bosque dos Jequitibás

Um museu de história natural

Expondo deformidades como um novilho

De duas cabeças e um cervo

Com três patas dianteiras

No centro da cidade vi um museu de cera

Frente ao Teatro Municipal

Próximo à Sears e às Americanas

Ele me impressionou bastante

Essas lembranças talvez sejam

Mais invenções que lembranças

Sempre fui um menino imaginativo

Talvez tenha lido sobre tudo isso

E transportado para minha vidinha real

Por isso não creia sem dar bom desconto

 

                                          Igor Zanoni 

domingo, 13 de abril de 2025

A vida segue


Os vizinhos quando se encontram

Comentam as mortes da semana

No bairro

Eles sabem um pouco de todo mundo

Apropriam-se da vida de cada um

Mas não com muita bondade

Antes com certa carga de crítica

Talvez tenham um pouco de medo

Todos no bairro vivem com certo medo

Ou com certa suspeição

E todos são um pouco suspeitos

Daí que queiram saber muito um do outro

Que troquem informações

No barbeiro os homens falam

Tanto quanto as mulheres no salão

A igreja é um lugar de encontro também

Com mais amizade

Mas também com muito diz que diz

E segue a vida

 

                                                        Igor Zanoni 

sábado, 12 de abril de 2025

Sem controle


Não controlamos os sonhos

Mesmo pequenos acidentes

No nosso percurso diário

Turvam a noite

Eles nos mostram quanto estamos

Deprimidos e assustados

O dia seguinte é cansativo

Temos de dar conta do que houve

Aos poucos tentar voltar

Relaxar dizer adeus aos nossos males

Esse é nosso curso cotidiano

Buscar encontrar a paz

Que foge de nossa alma

Quando ela quase busca

Sair pela boca

Bem-vindos os sonhos

Que mostram nossa pequenez

Que nem notamos muito bem

Não fossem eles

 

                                                          Igor Zanoni

  

quinta-feira, 10 de abril de 2025

Momento da oração


Embora hoje eu não tenha uma igreja

E mal saiba dizer em que eu creio

Sinto saudade do momento de oração

De quando era menino

Ainda hoje faço minhas orações

Esses instantes são cálidos e tranquilos

Sinto-me íntimo de um céu

Que não sei se há

O amor pela minha vidinha me toma

E o sentido das coisas se refaz

Alguém me toma pela mão

Talvez esse alguém seja eu mesmo

 

                                                                      Igor Zanoni