sábado, 23 de abril de 2011

Charles Bronson


Charles Bronson

1
um sábio disse que a mídia
faz a gente torcer por um cara
interpretado por charles bronson
em Duro de Matar
também poderia dizer que fez muita gente
votar em ronald reagan
ou arnold schwazeneger
por sabe-se lá que artes também
o guerreiro frio joão paulo II
tornou-se o mais popular
papa de todos os tempos
jovem fotogênico e viajante
combatente do que não entendia
ou não gostava

2
o meu creme hidradante tem o cheiro
do meu creme de barbear
e por que não? do meu sabonete
e do meu anti-transpirante
seja lá o que eu use
fico com o mesmo cheiro
do mesmo Men

                                         Igor Zanoni

Ratos


Ratos

debaixo das ruas há outras ruas
encanamentos de água esgoto
águas pluviais
onde moram ratos que passam a vida
procurando comida e se reproduzindo
aperfeiçoando técnicas de sobrevivência
como as baratas e outros seres
ns quais não pensamos
porque construimos nossas ruas
de modo a evitá-los esquecer
seus nomes e sua forma
mas ali estão como nosso inconsciente
surgem não só nos sonhos
mas de repente quando tomamos sopa
confortáveis na nossa noite doméstica
entram por um furo insuspeito na trama
e vão escolhendo seus quartos

                                                     Igor Zanoni

Lágrimas

Lágrimas

chorando um pouco de minhas lágrimas
á beira do laguinho do parque Bacacheri
os patos gentis me cercaram
graves alvos com detalhes marrons
um pouco obesos é verdade
entre patinhos menores
todo pretos com um amarelo
na boca do bico
também as grandes carpas
fizeram à minha volta um semi- círculo
com suas bocas grandes à flor da água
nesse devaneio comprei pipocas
e absorto joguei um pouco
aos meus amigos que embora irracionais
me faziam compreensiva companhia
oh dor logo percebi que eles queriam
mesmo era pipoca ou o que de mim viesse
taxei-os maus interesseiros
mas ponderei compassivo
“ que mal alimentados funcionários públicos!”
cabiam bem em um conto de Gógol

                                                    Igor Zanoni

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Rua

Rua

No início dos sessenta nossa rua no Castelo me parecia imensa, quase não passavam carros, e podíamos brincar à vontade. É verdade que às vezes vinha um carro quebrar os tijolos que usavamos no bets, xingavamos bastante mas depois a vida coa continuava. Uma vez um carro passou sobre uma pequinês que eu tinha, ferindo-a e tirando seus olhos que ficaram meio pendurados sobre o focinho. Meu pai apanhou o cachorrinho no colo e levou imediatamente para o veterinário. Quando voltou o pequinês tinha sido operado e estava pronto para outra. Se não fosse meu pai! Eu podia brincar com uma dúzia de crianças como Gersinho, Gilmar, Fábio, Flávio, Orest, Natália, Regina, Luciana, Paulo e Jorge Matthes, e outros cujo nome esqueço. Havia as “crianças de rua”, talvez os mais pobres ou fora do círculo de minha mãe, com os quais eu não podia brincar, ou só esporádicamente, embora eu teimasse e os vicitasse em casa, como Ito, Dalton, Djalma. Eles jogavam futebol, esporte que nunca joquei direito, o que me deixou sempre fora de qualquer timinho de bairro. Meus irmãos brincavam também, Alex, felippe, Ivone, os seguintes na carreirinha de filhos da casa. Mônica e Tintim vieram depois. Nesta época passei por eventos políticos como a campanha eleitoral de Jânio versus Lott, quando lutei fervorosamente por Jânio distribuindo vassourinhas em forma de broche, com as quais Jânio iria varrer a corrupção do País. Depois veio a redentora, que percebi mais pelo ar compenetrado que papai passou a usar, pois ele era tenente do Exército, mas nunca percebi mais do que a atmosfera em torno daquele pai. Só mis tarde, no ginásio, comecei a saber um pouco de política e instintivamente busquei a esquerda, que achava mais destemida e corajosa. Lembro de amigos ainda mais antigos, antes de mudarmos para o castelo, no Bonfim ou em cáceres. Lembro de seus rostos e seus nomes, dos nossos brinquedos e hábitos, dos meus pais e do nosso dia a dia. Penso que alguns como eu são caramujos que levam tudo ás costa, sua casa e seu passado. Por isso não sou muito presente ás vezes, vivo para cá e para lá na minha extensa vida, em algum ponto, um pouco em todos.

                                                      Igor Zanoni 

Recreio

Recreio

abrimos o nosso estojo escolar
com o lápis riscamos o nome do outro
da última página do caderno
o apontador aponta nossas flechas
somos tibos inimigas mas ao contrário
das crianças no recreio
não brincamos
falamos sério e para sempre
carregaremos na vida esse episódio infeliz
como mais um dos momentos infelizes
que não pudemos evitar

                                                    Igor Zanoni

Só para você

Só para você

eu não pude ser o cara bacana
que meu pais esperavam
não  fui o cara certinho
como 0, 00000000000000001%
das pessoas são
e o padre adora e mostra como exemplo
da moral ocidental
não fui feliz e bem casado
não fui perfeito para meus filhos
faltei com meus amigos
mas não me recordo do porquê
tudo isso aconteceu
acho que foi  azar humano
não ser para você
tudo que você sempre quis
e se achou com todo direito de esperar
esperar o que?
quem pode dizer?

                                                        Igor Zanoni

Sessenta

Sessenta

agora que passamos dos sessenta
podemos relaxar colher
os frutos da vida
vamos cuidar juntos da pressão
e pegar remédios grátis no postinho
vamos passear de õnibus
acompanhar as novenas
visitar parentes
ganhar às vezes um beijo dos netos
vamos comer nosso frango nos domingos
ás cinco sai pão quentinho
vamos comer nosso pão com alegria
e fazer o jogo do contente

                                                        Igor Zanoni