quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Casamento



houve um casamento em um bairro afastado no qual nunca havia estado, lembro do nome da noiva, do noivo não me lembro. ela era magra, morena, com uma elegância pobre. circulei a casa que a família estava construindo, ainda inconclusa, espantei-me que a construção não era muito geométrica, e paredes se inclinavam como se não possuíssem um fio de prumo e não fossem mesmo senão pedreiros improvisados. havia um  bolo grande com glacê de bordas rosadas e uma profusão de balas de coco feitas em casa, envolvidas em papel de seda. sentei-me na varanda pequena, não havia música, todos os convidados eram serenos, próximos, e conversavam sobre seus planos, todos exequíveis. a tarde era calma e eu me sentia um jovem que de outra forma fazia também uma entrada na vida. não sei como eu parava nestes lugares e situações, com certeza por causa de meu pai, que era um homem sério e respeitado, mais para os de fora de nossa casa que para nós mesmos, mas eu dava sempre um jeito de sentir, olhar, perceber, conversar quando possível, com discrição e ainda hoje sinto bem como meu coração batia, nesta e em muitas outras ocasiões. este sentimento de mim mesmo nunca perdi, mas era um sentimento nascido dentro de situações que eu olhava ao mesmo tempo com calma e avidez.


                                                                     Igor Zanoni

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Ralo


usando imagens banais
se cai um toró como estes de verão
e de um planeta derretendo
não é possível esperar que o ralo do quintal
dê conta da enxurrada
apanho o rodo a vassoura o pano de chão
espero sentado na cozinha
bem quieto
aprendendo a ser mais quieto
e descobrindo o que vem por aí
limpando meus próprios ralos
colocando mais rodos no  orçamento
vendo que roupas velhas
podem virar outros panos de chão
sentado como uma velha dona de casa
pensando na vida
se é que isso ajuda


                                                 Igor Zanoni

Tempo

eu converso com você
mas o que falo passa ao lado
em uma outra conversa
que só nós ouvimos
com uma escuta que cultivamos
em tanto tempo e pertencimento
tempo que não se conta
tempo nosso interior
ninguém precisa saber do que se trata
mas nós precisamos contar
com o outro e para o outro
com essas palavras que se contém
em outro léxico
como nós nos contemos
ao falar discretos e breves
para que outros na sala
não nos incomodem


                                                   Igor Zanoni

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Passagem


meu amor deixa uma confusa passagem
sigo sem poder abandonar
inesperada indecisão
sem poder não perguntar
se estamos bem ou seguros
entre nossas mãos tão dadas
se estes olhos que nos veem
estão certos ou confundem
acordos que não precisam se dar
para sempre ou antes
 se um minuto bastou
ou mesmo em um minuto me perdi
seu amor me busque em minhas frestas
arranque com mãos certeiras
seu minério
acalme as batidas
os telefonemas
a voz insegura
decidido amor me tome de mim mesmo


                                                    Igor Zanoni

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Mote



recolho paciente em meus poemas
o mundo que nem sempre espero
que entre linhas entre-vejo
ou dou um jeito de inventar
supor nem sempre com sabedoria
mas com um mote
eu ofereço aos poucos amigos um mote
talvez sirva como algum princípio
de riso pensamento identificação
sempre é bom encontrar no mundo
quem entre tantos males ache graça
ou se lembre de nós e nos escreva
mesmo um poema nem sempre bom


                                            Igor Zanoni