domingo, 2 de agosto de 2026

Nossas mentiras


Mentimos muito

Mal percebemos quando e quanto

Buscamos assim caber na mente

E na vida do outro

Este que sempre nos julga

Desejamos que nossas estórias

Deem certo no fim

Desejamos sucesso e aplauso

No palco que todos os dias

Criamos para nós

Nós  personas temerosas

E mentirosas

 

                                                             Igor Zanoni 

sábado, 1 de agosto de 2026

Senilidade


A morte mais dolorosa

Se dá no interior

De um casal longevo

Com suas memórias de amor

Separações retornos

Paixões

E mil miudezas

Visitas a médicos

Amigos que se vão

O tempo não parece infinito?

E no entanto cessa

Deixando um irremediavelmente longe

Outro irremediavelmente só

Lembrando que também ele

Logo irá morrer

 

                                                   Igor Zanoni 

sexta-feira, 31 de julho de 2026

Sonhos


O seu João fala

Sobre aquilo que vive

Mas às vezes se sobressalta

Com seus sonhos

Para os quais ele não tem

Palavras

 

                                                        Igor Zanoni 

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Um bom intérprete


O ser se diz de muitos modos

Mas mesmo no sonho

Em que aparece cristalino

É difícil e cheio de ardis

Todo sonho precisa

De um bom intérprete

O que será de nós

Sós e tateantes

Em nosso pobre entendimento?

 

                                                     Igor Zanoni  

terça-feira, 28 de julho de 2026

O nascimento do sol


Quando nasci

O sol havia nascido há muito

Há bilhões de anos

Ninguém poderia nascer sem o sol

Em nenhum momento do mundo

Mas quando o sol se for

E levar da terra a sua luz

Eu terei morrido há muito

Há bilhões de anos

Todavia, jamais haverá no mundo

Uma morte para todos decisiva

Sem que o sol morra antes

Nosso velho sol é sempre

Nova vida

Enquanto viver

 

                                                                          Igor Zanoni 

domingo, 26 de julho de 2026

O ser e o ente


A visão do rio

O uniforme do grupo escolar

O batalhão de fronteira

Os caixõezinhos brancos rumo ao cemitério

O ofidiário de papai e frei Casimiro

A saia rodada de minha mãe

A  multiplicidade dos entes

Na unidade do ser

 

                                                        Igor Zanoni 

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Solidão


A solidão é uma segunda pele

A proteger do frio encontro com a vida

Ela nasce com o rapaz tão jovem

Procurando seu lugar

Entre as relações da casa paterna

E o pequeno mundo da rua

Os amigos também jovens

A estranheza do que vivem os pais

O espaço minúsculo de criança

E no entanto difícil

Do qual se precisa preservar

Auscutar entender

Suportar a angústia do que o rodeia

 

                                                         Igor Zanoni

 

  

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Plenitude


Buscar a plenitude é ilusório

Talvez os santos a alcancem

Mas às vezes ela nos toma

Em uma relação com o amor

Quando um sério problema é resolvido

E podemos descansar

Assim o corpo relaxa

Os olhos quase se fecham

E a vida nos parece tão bem-vinda

 

                                                                      Igor Zanoni 

terça-feira, 21 de julho de 2026

Naquele dia


Eu tinha uns dez anos

Naquele dia lembro bem

Saí de casa e me dirigi à rua

O sol à minha frente

Eu sozinho

Com uma solidão só minha

Diante da perspectiva

De viver tão comigo

Sob o sol que batia à frente

 

                                          Igor Zanoni 

segunda-feira, 20 de julho de 2026

A crença necessária


Difícil crer em Deus

Mas cremos nos que nos rodeiam

E agem com o coração em Deus

Logo de certa forma

Cremos também

Ele é fruto de nossas relações

Ele está no meio de nós

Para que desejar uma crença

Além dessa?

 

                                                        Igor Zanoni 

quinta-feira, 16 de julho de 2026

Correria


O sábado passa suavemente

As crianças hoje não têm aula

E brincam de bola na calçada

Eu comprei frango assado e maionese

E minha mulher se prepara para a missa das três

Tudo é calmo e caseiro

Mas a avó que sente o friozinho de Curitiba

Comenta na falta de outro comentário

Meu Deus! Quanta correria!

 

                                                  Igor Zanoni 

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Falta


Nem sempre é possível

Prover ao que nos falta

Viver é uma falta crescente

Viver é perder

Até aquele dia em que tudo

Vai se perder

Melhor acostumar-se

Com o que temos nas mãos

Melhor ser sóbrios

E guardar um lugar na alma

Para o que se foi

 

                                                          Igor Zanoni 

domingo, 12 de julho de 2026

Escola


Já no ensino fundamental se aprende

Para nunca mais esquecer

O alfabeto a aritmética desenho

Mais tarde maravilhas como o princípio

Dos vasos comunicantes a gravidade

O sistema solar

No segundo grau se aprende as equações

De Maxwell

O cálculo diferencial a tabela periódica

E quando se faz uma graduação

Aprende-se que agora se é um jovem adulto

Que você ganhou uma nova etapa na vida

 

                                                    Igor Zanoni 

sábado, 11 de julho de 2026

Interiores


Flashes de minha vida

Eu me sinto sozinho em mim

Desloco-me em qualquer atividade

Saio de casa e sinto o sol

Não posso compartilhar o que sou aí

Tenho uma infinidade desses flashes

Não sei quantos nem bem quais são

Momentos narcísicos perdidos em minha alma

Que súbito recupero como eu mesmo

Como encontro ou saudade

Momentos interiores em que minha alma

Está só com consigo

Com o mundo

Plena calma por exemplo

Me deslocando na rua como um ser

Completo e sozinho

E que não quer outro

Quer apenas habitar esse mundo

Que de repente me vem

 

                                                                         Igor Zanoni 

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Flerte


Eles eram inseparáveis

Compartilhavam suas ideias

Seu tempo quase todo

Ouviam jazz fumando um

Iam à praia em Bertioga

Seus amigos eram os mesmos

Namoraram as mesmas meninas

Achavam que eram grandes amigos

Não perceberam mas na verdade

Eles mantiveram um longo flerte

 

                                                       Igor Zanoni 

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Dama-da-noite


No fundo do jardim

Asfixiado por damas-da-noite

Eu e meu amigo preferido

(como ele outro jamais tive)

Fumávamos Hollywood sem filtro

Ouvindo Miles Davis

Isto aconteceu centenas de vezes

Mas agora é impossível

Como é impossível uma aurora

Nascer à meia-noite

Uma primavera ser eterna

Uma amizade jamais findar

Ao menos por sermos mortais

 

                                        Igor Zanoni 

terça-feira, 7 de julho de 2026

Mil pássaros brancos


 A alma não é caótica

Sentimentos vivências antigas

Saltam em mim sem que saiba bem

Seus motivos

 O porquê de tais revivências

Há milhares de atos físicos

E emocionais em minha vida

Submersos ocultos

Mas súbito me vêm

Convocados pelo momento

Há em mim um quebra-cabeças

Com milhares de peças

Que de repente surgem

Fazem sentido

E ordenam por instantes meu viver

O doutor me fala em inconsciente

Mas não é bem nada disso

Minha vida se organiza e se perde

Mal sei como

Mas nela sou esse ser envolto

Em tanta perplexidade

Como se mil pássaros brancos

Despertassem minha psique

Depois me deixassem

 

                                                                Igor Zanoni 

segunda-feira, 6 de julho de 2026

Transcendência


Os homens de todos os dias

Vivem a vida de pés no chão

Trabalham fazem o rancho

Olham os filhos

Em nada há transcendência

Exceto quando aos sábados

Às sete da noite vão à missa

Com sua esposa

 

                                               Igor Zanoni 

sexta-feira, 3 de julho de 2026

Croácia


Tenho uma ideia um pouco vaga

De onde fica a Croácia

Mas vejo na tevê sua seleção de futebol

Sob o comando de Luka Modric

Com o patrocínio da Coca e da Visa

Bom, eu também tomo Coca

E como todos tenho uma dívida

Com o cartão da Visa

Isso me aproxima da Croácia?

 

                                                Igor Zanoni 

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Confissão


Minha oração cotidiana

É minha confissão

Minha autoanálise

Assim entra Deus

Em minha vida

Como parceiro

Ao qual faço transferência

E cujo amor desenho

No diário pensar a vida

 

                                                        Igor Zanoni