quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Em nossas mãos


O Reino de Deus não está aqui ou ali

Ele está entre nós

Nas relações que tecemos

Melhor: naquelas que forjaremos

Não apenas ao construir

Uma sociedade boa

Mas também uma em que a oração

Não será um mero implorar

Mas sobretudo agradecer

O coração a um tempo

Alegre e reverente

 

                                                                        Igor Zanoni 

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Morada


Sabemos logo que uma casa é habitada

Ao entrar na sala e perceber

Um paletó jogado sobre o sofá

Ou copos sujos na mesinha de centro

Com certeza resquícios da noite passada

Ou se na cozinha os pratos estão ainda na pia

Se no quarto a cama não está feita

Uma casa assim fala da vida dos seus moradores

Ela é apropriada nesse uso denunciado

Pode-se dizer que ela mesma vive

E já não é uma casa mas um lar ou uma morada

 

                                                             Igor Zanoni 

sábado, 12 de setembro de 2026

Minha esposinha


Minha esposinha acorda cedo

Vai à primeira missa do dia

Depois cuida da sua mãe

Que é muito idosa

Vai ver como está seu filho

Se precisa de alguma ajuda

Seu coração é cálido

E está sempre bem-disposta

Também cuida do que ganhamos

E vai comigo à feira

Minha esposinha é discreta

Não conversa sobre o que ignora

Sua virtude é a bondade

Calma quieta sempre presente

 

                                                  Igor Zanoni 

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

A melancolia


A vida é imensa

Ilimitada

Quando um poeta a canta

Mas há os que reduzem a vida

A algo mesquinho

Estes não sabem do que se trata

Anos se passam na modéstia

Dos dias

Assim vivem

Que pena

Mas talvez haja algo infinito

No menor dos seres

Apenas ele não sabe

A isso se chama melancolia

 

                                                       Igor Zanoni 

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Ele se foi


Embora há muito ele se tenha ido

Custo a crer que se foi

Que não está sempre comigo

Meu sonho com ele é nítido

Vejo-o ainda jovem

E a aura que desprende

É a do meu amigo

Há alguém que um dia se vá?

Não creio

Creio firmemente na vida eterna

Daqueles que amamos

Com doçura entretanto

Não com a amargura

Que os infelizes dedicam

Aos seus mortos

 

                                                       Igor Zanoni 

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Temporadas no inferno


Temporadas de ciático

Insônia

Síndrome do pânico

Enxaquecas

E sempre o mesmo desespero

Curaram-me meus psi pacientes

Algumas bolinhas

E a meditação zen

Não sorria

Não é o caso

Foram temporadas no inferno

 

                                                           Igor Zanoni 

terça-feira, 8 de setembro de 2026

A poesia cotidiana


A poesia está nas pedras

Das calçadas que as pessoas

Percorrem

Sem carros ou motos

Apenas com seus corpos

Vemos as pessoas aí

Admiramos

A poesia escapa dos corpos

Da troca eventual de palavras

Dos toques eventuais

Assim se descobre e vive

A poesia cotidiana

 

                                                        Igor Zanoni 

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Álbum


Criança ainda, ganhei de meu pai

Um álbum de figurinhas

Ali havia povos originários

Apaches esquimós araucanos

Habitantes da Terra do Fogo

E outros para os quais o álbum

Eram quase as cinzas

De um antropólogo

 

                                            Igor Zanoni 

domingo, 6 de setembro de 2026

Sensibilidade


Eu era sensível a tudo que me dizia

Às vezes me sentia feliz

Às vezes me entristecia

Não que o que me dizia

Fosse em extremo pertinente

Mas era o que me dizia

O que à sua vida pertencia

Outro me dirá : ora, você a amava

Esse era o seu encanto

Mas eu era inocente disso

Disso eu não sabia

O amor que não se sabe

Se torna vulnerável

Por isso ela mesma

Ignorava se me alegrava

Ou fundo me feria

 

                                                                                    Igor Zanoni 

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Dizer a poesia


Muitos vivem a poesia

Sem saber dizê-la

Um poeta recolhe os traços

Da poesia espalhada no mundo

E dá a ela uma forma em palavras

E música

É assim que a poesia da vida

Se revela

Não basta vivê-la

É preciso dizê-la

 

                                                                      Igor Zanoni 

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

O gato de Cheshire


Ainda que os limites da memória

Sejam vastos

Temos em muitos casos índices

De uma pessoa um momento

Um acontecimento

Como se a memória não pudesse

Dar conta de todo o lembrado

Esse rapaz por exemplo

Lembro muito bem seu sorriso

Tudo o mais se esfuma

O lugar a vestimenta o assunto

Chamou-me atenção o sorriso

Como o de um gato de Cheshire

 

                                                                            Igor Zanoni 

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

A importância da paciência


Ela vê muitas pequenas tarefas

A serem vencidas até

Sabe-se lá quando

Sabe o quanto é importante

Estar calma e equilibrada

Neste tempo indefinido

Sabe o quanto essas tarefas

Vão demandar do seu amor

Embora às vezes se irrite

Então para se manter bem

Ela se apoia em Jesus

Viver bem é para ela

Estar apoiada nele

O homem-Deus gentil

E paciente

 

                                                                Igor Zanoni 

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Atlas


Uma relação é feita

de pequenos acordos

Para que o cotidiano

 e seus impasses

se  mantenha

mas subjacente a tudo

é preciso que o amor mesmo

se mantenha

uma relação deve ser

amorosa e cooperativa

mas há de haver também

o momento dos passeios

das férias das viagens

no qual a maravilha do mundo

se sobreponha à missão

de sustentar como Atlas

o mundo como o conhecemos

 

                                                                              Igor Zanoni 

sábado, 29 de agosto de 2026

A felicidade


A felicidade é uma virtude serena

Nada tem a ver com a excitação

A mania

Se você está ao lado de alguém

E sente-se relaxado

O coração tranquilo

Descobre que ama esse ser

Oh ser que caiu na terra

Justo na minha vida!

Vamos passar a noite aqui

Ouvindo música

Tomando uma cerveja

Com limão e sal

 

                                                  Igor Zanoni 

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Titanic


Olha alvorecem novas neuroses

Sempre e sempre como nosso infeliz

Impulso à repetição

Mas há um novo contexto

A terra se desmorona

Os seres se desamparam por si

Há uma cisão que percorre

O mundo físico e a humanidade

Extingue espécies

Dissolve as calotas polares

Aquece o Pacífico

De modo que não podemos manter

Um Eros saudável

E uma quietude própria

Do prazer alcançado

O impulso de morte nos pegou de jeito

Vamos ao fundo como em uma escala menor

E muito mais glamourosa

Foi ao fundo o velho Titanic

 

                                                                                 Igor Zanoni 

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Um dia depois do outro


Um dia limpa as lágrimas do outro

 um dia equilibra quem no outro dia

estava se sentindo confuso

 a ansiedade não é permanente

 a vida não é puro desperdício

 mas é preciso insistir em um boa vida

 esta tem muitos ângulos

 por isso é preciso ter

alguma sabedoria e muita paciência.

 

                                                             Igor Zanoni

 

                       

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

O caminho obscuro


Nunca chegamos

O caminho não é muito claro

Vamos como podemos

Às vezes ansiosos

Às vezes nos dando parabéns

Para a frente e para trás

Vamos como podemos

Nossas marcas da vida

Estão no corpo que envelhece

Ou na saudade que nos envolve

Com tanta brutalidade

Muitos se foram há tempos

Estamos  ainda aqui

Um pouco perplexos

Pedindo ajuda ao céu

Que exista um céu para nós

 

                                                         Igor Zanoni 

sábado, 22 de agosto de 2026

São Miguel Arcanjo


Às seis da manhã a igreja está cheia

Na quaresma de São Miguel Arcanjo

O guardião do céu

No início do século XIX proclamou-se

A morte de Deus

Dois séculos depois Deus está aqui

Ao menos como poesia

E como amparo de todos os dias

 

                                          Igor Zanoni 

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Elixir


Ela quer ir ao centro

Comer um bolo na Dois Corações

E olhar as vitrines

Como fazia há muito tempo

Mas agora apoiada na bengala

E reclamando do vento

E das suas dores

Cada vez mais se limita

Ao exíguo espaço da casa

A televisão ligada em uma missa

Na qual o padre abençoa

O jarro de água que ela colocou

Em frente na estante

O elixir que ela bebe

Durante o dia todo

 

                                                     Igor Zanoni 

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Primavera


Hoje posso andar sob essa luz

Tão cálida

Sob as folhas dos ipês

Ao lado dos narcisos e damas da noite

Entre o perfume da primavera

E o pólen que me faz doente

Amanhã estarei em outra situação

Já será verão

Com o calor insuportável que hoje

O verão nos traz

E lembrarei dos jardins floridos

À época do nascimento da primavera

 

                                                          Igor Zanoni