terça-feira, 6 de setembro de 2011

Futebol é momento


Futebol é momento


Um bordão muito usado no futebol é: “Futebol é momento”. Pesa como uma espada de Dâmocles sobre a cabeça do jogador e do time. Vi jogadores em grande fase serem chamados de craques, e depois serem vendidos pelo clube como mercadoria imprestável, para tentarem a sorte em outro clube, assim como vi jogadores sem grande talento passarem por fases incríveis, jogando muito e se valorizando muito.  A dança dos técnicos tem a mesma sorte. O futebol, como tudo, tem um pouco de sorte. Os jogadores em geral mantém por isso uma postura em geral humilde. Quando fazem um grande jogo e são entrevistados após a partida vão logo dizendo: “ Futebol é momento, o time tem jogado bem e saímos graças a Deus com a vitória”. Os técnicos formam um pequeno grupo que se revesa nos times de alto a baixo no país, mas jogadores há muitos, a concorrência é enorme. O atleta vive sua juventude mantendo a forma, controlando a vida e suas paixões para se manter ativo e ajudar seu desempenho. Precisa também ter a cabeça no lugar, o que significa ser humilde, seguir as ordens do “professor” e da diretoria, conter impulsos de vingança e ira no campo quando recebe falta dura ou a arbitragem não agrada. Outros profissionais precisam ser também subservientes no trabalho, mas o atleta depende muito do seu estado físico, de sua inteligência emocional, para jogar bem por mais tempo. Mesmo assim seu tempo passa, e é curto: um jogador de trinta e poucos anos é um veterano que já quase não suporta o ritmo forte das competições. Seu tempo é breve, dura um momento. Por isso o atleta sempre lembra o duro bordão. Feliz dele quando conta com tempo favorável.


                                         Igor Zanoni

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Equanimidade


Equanimidade

eu tentei amar a todos
com todos ser alegre e compassivo
dar sempre a outra face como Cristo
ou um pedaço da própria carne
como fez o sublime Buda
eu tentei seguir a companhia dos excelsos
desde logo São Francisco
que pregou o Evangelho ao Sultão
na Jerusalém sitiada
ou muito antes o fervoroso Paulo
que foi tudo para todos
em nome do Senhor
tentei ser equânime e cuidar de todos
e sinto uma terrível decepção
por ter conseguido amar tão poucos
que para mim desceram
da generalidade dos homens
e foram seres concretos
que seguiam próximos de mim
em meu caminho
simples de carne e osso
rostos comuns como o meu
às vezes com um coração desapercebido
ou até de pedra
mas tão seu e tão meu

                                             Igor Zanoni

domingo, 4 de setembro de 2011

Projetos


Projetos

essa que você amou tanto
com quem fez estratégias de vida
por tanto tempo
a quem se explicou e pediu explicações
por quem se desgastou
como uma velha faca que aos poucos
perde o fio
junto a quem sonhou o possível
foi à praia nas férias
deu uma ajuda na sogra
entre dezenas de festinhas de aniversário
comprometeu o nome no banco
e assinou papéis eternos
agora é vida que não pode ser
 passada a limpo
nem recomeçada
sonhos repetidos
longas explicações a si mesmo
a alma entre os ermos da melancolia
e não há culpa nem recriminações
por tudo há que ficar agradecido
e juntar grãos de sabedoria

                                                             Igor Zanoni

sábado, 3 de setembro de 2011

Selo




sequer sabemos bem se lembramos
ou sonhamos
quantas vezes pode-se sonhar
repetidamente o mesmo
e viver o mesmo a vida toda
e mal sabemos se somos
se divertimos como bufões
 um rei sinistro com a nossa sorte
e os motivos de em cada ato
erguer-se a cortina
quando o melhor era rasga-la
virmos todos para o fundo da cena
sentarmos em um barril de rum
e esquecermos a próxima deixa
o próximo personagem
e juntos rasgar o selo

                                             Igor Zanoni

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Presença


Presença

você sente de vez em quando
algo grande e imóvel à sua frente
que você não pode descrever
mas de cuja presença não duvida
uma entidade metafísica e platônica
anterior aos mundos e às eras
que você busca sem parar aqui e ali
procurando em vão
mas que te aguarda em silêncio
ali bem ali à sua frente
e ao seu lado e em volta
ao mesmo tempo humano e desumano
que você não poderia dizer que ama
pois mal conhece e mal conhecerá
e se apropria como pode
usando a linguagem imperfeita das gentes
como um grande navio pronto para partir
lançando no porto o vapor que te envolve
a um tempo silente e estrondoso
você percebe? seguirá com o grande navio?

                                              Igor Zanoni

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Avenida


Avenida

no inverno as árvores
no centro da avenida
lançam ao céu esbranquiçado
suas hastes hirtas
em silenciosos gemidos
mas em torno a cidade supérflua
atira seus gases contra o sol
ao som dos veículos
de plástico e metal
ignorantes das estações e dos dias
no aflitivo tempo
da técnica e do mercado

                                        Igor Zanoni 

Claridade


Claridade

há vidas claras
com regras indubitáveis
que servem para nós e todos os outros
elas se confundem com certas palavras
certos gestos e modos de proceder
e mais com uma ideologia
que por mais tosca que a outros pareça
para estas vidas basta
e dela se fazem campeões
mas viver significa então
lutar por esta forma de vida
respirando apenas quando é possível
e nos outros momentos estar vigilante
porque os outros tem vontades
e nós mesmos não somos
tão claros tão límpidos
exceto se formos um pouco idiotas

                                                       Igor Zanoni