domingo, 8 de julho de 2012

Espiritual


as pessoas sempre estão comendo
o que está na paisagem do mundo
comem ou recomem o comido
com estômagos na cabeça na barriga
no sexo debaixo da pele e das unhas
poderíamos dizer que o mundo as come
com sua insatisfeita voracidade
por isso não nos parecemos com as vacas pacíficas
á margem da rodovia em que vamos
escutando uma música batendo um papo
e pensando em uma parada para urinar
e tomar um café com leite com rissoles
não somos como as vacas porque não somos de paz
um dia quero parar de comer e recomer
viver apenas do que trago ao mundo
ou que ele me dá na sua prístina naturalidade
não quero do mundo senão viver
o meu tempo ao seu lado
sob a chuva se chover
ou pondo as roupas para secar
se estiver sol
e assim por diante
espiritual mas não religioso

                                                         Igor Zanoni

Uns


eu gosto docê
fica mais simples
enterramos a machadinha
reaparece um certo rumo
a velha esperança volta
e o patrimônio desses anos todos
rebocamos sem cal e cruzes
sem fissuras aparentes
toma minha mão de antigo amigo
todos nós não somos grande coisa
mas não temos outros

                                                         Igor Zanoni 

sábado, 7 de julho de 2012

Perdido


Anna disse que não me imagina
com meus próximos sessenta anos
que para ela sempre serei
o rapaz meio perdido
que andava buscando não sabia o quê
para lá e para cá na vida
mas o tempo e a vida mudam quase tudo
e hoje sou um quase idoso
sempre meio perdido


                                                 Igor Zanoni
                                              

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Literatura


A literatura pode recriar a vida, de diversas formas, mas ela tem um espaço seu, particular. Ela pode ser comovedora, fazer-nos chorar ou compreender o obscuro de nossas vidas, mas não pode ser a vida jamais. A exasperação cotidiana, as mínimas tragédias do trabalho, do amor, das ilusões, tudo isso vivemos num espaço próprio, de cada um, que outros percebem, embora o partilhem, apenas de modo imperfeito. As alegrias também são coletivas e ao mesmo tempo tão próprias, que a vida é o único espaço no qual podemos nos refugiar, refugiar da própria vida. Mas a literatura está mais à mão que a vida como a desejamos. Por isso lemos tanto, buscando uma vida que não está nunca nela, senão como metáfora das nossas metáforas, sobre nosso osso inquieto.

                                                                 Igor Zanoni

Sozinho


quando você está sozinho
na pior e não vê saída
tenha à mão um kit básico de sobrevivência
ele depende de como você é
pode conter livros do Dalai Lama
cd’s do George Harrison
e uma garrafa de merlot
tenha um telefone à mão
cuide dos amigos que você não perdeu
para esta ocasião especial
ler também ajuda
eu recomendo Guimarães Rosa
Manuel de Barros e Adélia Prado
um filme é bom
comigo Woody Allen nunca falha
esses são ingredientes de um kit
sereno feliz acolhedor
sabores e saberes que o mundo não apagou
não pense nos amores que perdeu
ou quer conquistar
com o amor nunca se sabe
mas deixe a porta aberta
nunca esqueça desse detalhe

                                                                  Igor Zanoni

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Wilson Rio Apa


O escritor Wilson Rio Apa tem hoje 87 anos, mesma idade de Dalton Trevisan, mas nunca foi tão prestigiado como este. Eu sempre ouvi sobre ele, mas agora, lendo sua tetralogia, fui surpreendido por uma narrativa invulgar, nascida de vivências antigas nas ilhas do litoral paranaense, destacando-se Superaguy. O texto nada tem de urbano, tem como contexto um catolicismo popular sem igreja e sem padres, messiânico, a saga do Menino Santo. A personificação da Morte, as vicissitudes das almas , a comunicação entre vivos e mortos, a cura e o exorcismo do Mal, tudo flui entre  elementos naturais da ecologia litorânea, peixes diversos, caranguejos, guaiás, cavernas, marés, os ofícios de pescador, canoeiro, as populações pobres que envelhecem se enraizando no solo arenoso de acidentes geográficos entre o real e o onírico. A poesia fluida, a linguagem serena posto que cultivada, as características formais do texto tornam-no gostoso de ler, cativam, amarram o leitor. Se Dalton sempre foi muito prestigiado pela academia e a crítica, por sua exigente prosa, seu conhecimento dos clássicos do conto, Rio Apa nunca teve o mesmo reconhecimento. Seus livros foram publicados pela Fundação Cultural de Curitiba, não se encontram em livrarias. Dalton fala de uma Curitiba antiga, não da metrópole que surge nos anos setenta, com o tema do desejo dominando outros. Rio Apa fala de um território mais remoto, desconhecido para mim, urbanoide, e se situa no terreno do mito. Vale a pena conferir.


                                                Igor Zanoni
                                        

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Viagem


duas pessoas fazem lado a lado
viagens distintas
por itinerários que parecem se confundir
mas que cruzam paisagens diversas
perigos e distrações diferentes
duas pessoas nunca estão lado a lado
talvez queiram se aproximar
para isso viajam tanto
mas uma para em Alto Paraíso
outra em Ponta Grossa
tão estranho é o mundo de cada um

                                           Igor Zanoni