segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Boa nova


há surpreendentes ocasiões
nas quais vão água abaixo
convicções antigas sobre nós
e a compreensão do meio
que nos envolve
as apostas passam a valer pouco
ou ao revés suspeitas velhas
ganham foro e cidadania
assim idéias que desconhecíamos
podem ser as que mais necessitávamos
se afinal as encontramos
não importa por que meios
subimos no telhado e gritamos
nossa novidade
  e colocamos nossa luz 
no alto da casa
todavia só encontramos se estivermos
mesmo sem consciência buscando
se nossos pés já dançavam
uma nova música
e buscávamos vinho novo
para o odre recém costurado

                                                  Igor Zanoni

domingo, 8 de setembro de 2013

Macrobiótica


nos anos setenta, a nova classe média brasileira importou diversas novidades culturais. Uma delas foi a formação de psicanalistas e de terapeutas Gestalt. na então pequena Campinas
essa foi a época da minha graduação, no também então pequeno departamento de economia da Unicamp. alguns começaram a fazer análise, outros a estudar Freud tornando-se inclusive psicanalistas, mesmo sem deixar necessariamente a economia. eu comecei a fazer Gestalt em um grupo formado por um chileno que pelo Brasil circulou. mas não obtive muitos resultados e passei com amigos à outra novidade, a culinária macrobiótica zen, desenvolvida por Tomio Kikuchi aqui e originariamente por George Oshawa no Japão. eu e Flávio Blois Duarte, excelente aluno, calmo, e nada ortodoxo ideologicamente falando, aprendemos a arte de fazer arroz integral como deve ser realmente feito, em panela de ferro. Flávio começou com a dieta de sete dias do arroz, unicamente arroz, e seu pulso quase parou. nós acreditamos que a macrobiótica gerava a saúde ideal física e mental, e assegurava uma longevidade bem-aventurada. depois parei com aquilo, sempre retomando nos momentos mais difíceis da vida. mas havia os ortodoxos, nossos professores sobretudo, que nos ensinavam que a psicanálise era desnecessária, bastando  tomar remédios, e que a carne era indispensável à saúde. o arroz era coisa dos países pobres do Oriente. o ensino era duro, e percebi, com tudo isso , como era difícil fazer opções na vida. 

                                
                                                               

                                             Igor Zanoni

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Cebolão


1
hoje reviveram os LP´s
caros importados nítidos
os nossos eram modestos
riscavam pulavam faixas
acompanhavam a ida à praia
onde derretiam sob o sol 
que nos frigia

2
o pai comprava para mim Vulcabrás
com sola de borracha legítima
vulcanizada
quando pude comprei um sapato
de salto Luis XV 
com uma enorme fivela prateada
hoje infelizmente eu mesmo compro
meu Vulcabrás

                                                Igor Zanoni

Mundanidade


há mundanidades veneráveis
o jockey o havana o poker
o vinho do porto o meretrício
a injeção de morfina 
o solo de clarinete 
a libertinagem feliz
 flores do mal semprevivas

                                                Igor Zanoni 

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Passando o tempo


passei a vida fazendo as mesmas coisas
aprendi a não falar com a boca cheia
a não interromper a conversa dos adultos
decorei dezenas de versículos bíblicos
demonstrei teoremas da geometria
competi em jogos estudantis 
tomei Nescau comprei calças jeans
ouvi os Beatles e fumei a erva
casei criei meus filhos tive amigos 
e inimigos
fui inconsequente fui às vezes pertinente
prestei concursos reclamei do salário
briguei em casa e fora de casa
tive tédio tomei antidepressivos
busquei o sentido da vida
colecionei autores preferidos
ouvi Bach Beethoven Mozart Chopin
fiz empréstimos comprei uma casa na Caixa
fui mandado para o Seproc
tomei aspirina tentei a psicanálise
virei vegetariano bebi parei de beber
voltei a beber quando era o caso 
como mais eu poderia passar a vida?

                                                                    Igor Zanoni

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Uma boa briga


é melhor entrar numa boa briga
que deixar o mundo girar
como se não fosse conosco
melhor fazer uma bela bagunça
que morrer de tédio ou preguiça
o mundo precisa se mover
nós precisamos nos mover
nós somos um bom princípio
em qualquer momento da vida
creio em Deus Pai e creio em mim
como creio em você
felizmente há coisas que são necessárias
há muito que é preciso fazer
não importa tanto o como
ou uma exata previsão
nós somos um pouco caóticos
mas pior do que está não vai ficar


                                                           Igor Zanoni

domingo, 1 de setembro de 2013

Sherlock Holmes


um amigo me disse há tempos que estava ansioso e trabalhando muito. à tarde eu levei para ele uma caixa com minha coleção de aventuras de Sherlock Holmes recomendando que se divertisse. era uma sexta, e na segunda ele me devolveu cedo a caixa dizendo que havia lido todos os livros no final de semana e havia relaxado muito. outro amigo me contou que estava também ansioso com o excesso de trabalho, tanto que ficou adoentado três dias, acamado. nesse período ele leu os livros de Allan Kardec, melhorou bastante e me disse que era muito bom ficar doente de vez em quando.

                                             Igor Zanoni