terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Silenciar, aquietar, meditar




os praticantes do yoga possuem a técnica de mouna, manter silêncio durante algumas horas, para aquietar a mente e não provocar com as palavras reações dos que se encontram próximos.  a neurolinguística usa técnicas comportamentalistas deste tipo, fazendo com que uma pessoa evite dizer certas expressões ou procure isolar-se em si, voltando-se mais para seu mundo interno e menos para o externo, que tanto nos chama e com o qual nos relacionamos mais forte e frequentemente. supostamente isto conduz a um apaziguamento interior e de fato muitas pessoas que usam técnicas assim evitam ficar  muito inquietas, pois o que dizemos rebate de formas não muito conhecidas nos demais, e em geral antecipamos o que o outro talvez possa sentir. é claro, tudo que fazemos gera consequências, não só o que falamos, mas absolutamente tudo, nossas ações em qualquer área. isto sempre foi chamado de karma no budismo, e neste sentido estamos sempre produzindo a qualidade das nossas relações, do nosso psiquismo, de nossa presença no mundo, mesmo após nossa morte. nisto consiste mais essencialmente nossa imortalidade, mais do que na permanência de uma alma em algum lugar do cosmo ou em alguma forma de vida após esta vida. isto porque podemos ter mais certeza dessas consequências que do resto. a meditação também enfatiza o silêncio e a cessação do karma, e o budismo e o taoísmo insistem em que a ação perfeita se fecha em si, não gerando carma. mas para isto não basta calar-se ou não fazer algo. é preciso que as palavras e as ações se baseiem no intelecto e nas virtudes que podemos sintetizar como pureza, compaixão e desapego. toda ação baseada nelas não gera karma, assim como a meditação não é um ficar quieto, mas uma ativa atenção dedicada a passarmos a ser nosso cosmo, à busca de superar nossa dispersão psíquica e nosso sofrimento. passamos a perceber, em tudo que falamos ou fazemos, o que deve ser dito ou o que deve ser feito para a cessação do que o budismo originariamente chamava o mar de sofrimento da vida e samsara. assim, silenciar não é aquietar e aquietar não é meditar. por isso a essência do budismo foi resumida por Dogen como estar presente aqui e agora, abolindo o karma.

                                                          Igor Zanoni

domingo, 4 de janeiro de 2015

Dezembro


lembre aquele dezembro
em que só pudemos comer abacaxis
o passeio que fizemos a Itu
onde se faziam objetos comuns
em tamanhos descomunais
e a espuma do detergente cobria a ponte
sobre o rio
onde seria tão gostoso namorar
lembre a semana no sítio em Paulínia
onde generosos pés de mandioca
eu arrancava com meus músculos de rapaz
replantando um pedaço
para futuros casais
lembre o sítio cercado por cogumelos orvalhados
e o tempo infinito prometido
pela utopia de nossa pele
tão realizada tão aqui e agora
e agora nunca mais


                                                                 Igor Zanoni

sábado, 3 de janeiro de 2015

Vertigem

1

quem entoa enlevado a todo momento
graças e louvores ao Altíssimo
esquece o senhor das crianças
dos anões dos pigmeus
dos que têm certas vertigens


2

talvez estejamos vivendo mesmo
o fim dos tempos
( Slavoj Zizek pensa dessa maneira )
mas com que pressa não se faz nada
dizendo: “ Está escrito! “


                                                          Igor Zanoni

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Dinheiro



mesmo os antigos socialistas jamais imaginariam como o dinheiro pôde se tornar o que é na atualidade, não só o representante de todos os valores e daquilo que não tem valor no sentido de ser produzido por um trabalhador assalariado, como um objeto de arte, não apenas o meio pelo qual se compram consciências à venda, honra, pudor, bom nome, etc., mas o valor por excelência. a sociedade mercantil há muito não oferece nada a ninguém, exceto inutilidades ou supostas utilidades ou o que se aprendeu que é bom e quando se pode passa-se a comprar também, mesmo que interiormente não se mude tanto. veja uma pessoa que, agora sim, pode comprar, seja uma moto cara e ostensiva, ou vários carros ou qualquer coisa que signifique : “agora sim, estou indo, vejam como é belo”. mesmo quem não está neste caso, o importante é a avidez por coisas, uma enorme carência, a certeza e o sofrimento de que o dinheiro sempre faz falta e de que se ganha pouco, muito pouco. mesmo que se preze muito a bondade, o amor, a compaixão, o prazer da vida, a ética e outras coisas consensualmente boas e louváveis, elas não podem ser compradas e vendidas, pertencem a um plano da vida social  em erosão. assim, não se consegue mesmo amar ou se relacionar como pretendido, ou ser generoso, etc., ou se consegue apenas em um plano pouco estimulante e banal, pois melhor que tudo isso é comprar qualquer coisa, olhar as milhares de mercadorias produzidas sem qualidade nem beleza na Havan, na Riachuelo, em Miami, quando se pode. as pessoas vão ao centro ou ao shopping e há sempre muita coisa, que requisitam a geral avidez, recriam a sensação de carência, de finitude não frente ao universo ou à existência comum a todo ser em todos os tempos, mas frente a tudo que não se pode ter mas se deseja tanto, se passa a desejar, a empilhar desejos. por isso nosso boss são os bancos, que manipulam governos, verbas sociais, orçamentos domésticos, preço de cada mercadoria. os bancos tem a suprema capacidade de enriquecer quanto quiserem, não se sabe para quê, nem eles sabem, há muito eles não têm nenhum sentido e pulverizam sobre a Terra e tudo que ela contém sua insensatez. há pessoas que buscam fugir disso procurando Deus na igreja ou na sacristia, mas o importante seria ver Deus fora dali, que também a Igreja tem cumplicidade com o dinheiro, o poder e o que está aí. Deus está nas relações sociais, familiares e pessoais que gostaríamos de ter e nos iludimos que temos.  poucos, com o papa Francisco, entre outros, à frente, veem claro isso, e como são combatidos !


                                                     Igor Zanoni

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Azulejo



com muita demora me decido
a restaurar o azulejo
que contém toda a casa
 completa-a e supera
indica em todos os gestos cotidianos
em todo projeto que ainda busco
o veio nada banal
nada óbvio
nada pressentido
mas cuja descoberta ou lembrança
cuja redescoberta melhor dizer
existe antes de mim
assim como existo porque ele existiu
antes e primeiro
e me diz antes de eu poder dizer
poemas confusos
conversas cotidianas cheias de intenções
e labirintos
nos quais me perco antes de dormir
ou depois nos sonhos
então aprendo a me aquietar
e a ouvir a humanidade
que eu você e quase todos
já não ouvimos
ou nunca supusemos
mas ainda está aí sempre estará
benigna e solícita
não como alta montanha
ou como o altar de uma grande igreja
antes urgente memória e carnadura
na na nossa vida e no nosso tempo comum
sempre  vida e tempo do advento


                                                                          Igor Zanoni