segunda-feira, 6 de abril de 2015

Cuiabá


depois de servir em Cáceres no noroeste do Mato Grosso por quatro anos, no Segundo Batalhão de Fronteira, meu pai conseguiu retornar ao Primeiro Batalhão de Carros de Combate Leves, em Campinas, para nossa casa. Cáceres ainda é pequena, em meio ao pantanal, colada à Bolívia, e eu havia vivido um período significativo em um minúsculo paraíso onde não faltaram nwambiquaras, bororos, pescas no rio Paraguai e as inúmeras iniciativas de papai tanto no exército como junto com os freis da missão jesuíta,  altos e vestidos com imaculadas e largas batinas brancas, entre outras lembranças. voltamos em uma semi-inexistente  estrada de areão branco, subindo e descendo em um voo de garça e muitas vezes parando e esperando por horas algum caminhão passar e nos socorrer de um problema mecânico da Vemaguete. este era um dos dois automóveis de Cáceres, que papai havia trazido com dificuldade, grande parte da viagem pelas chatas do rio Paraguai. quando chegamos a Cuiabá, cidade antiga, com grandes casas coloniais brancas, sua areia onde ainda muitos achavam um pouco de ouro, impressionou-me sobretudo o grande número de automóveis, quase sempre Nashes enormes. eu fiquei uns três dias na janela do hotel, pensando muito assustado como eu poderia viver de agora em diante em cidades imensas e intransitáveis como Cuaibá.


                                                                    Igor Zanoni


                                                                    

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Rachmaninoff



quando é temporada, gosto de ir ao Guaíra assistir os concertos da Orquestra Sinfônica, domingo cedo, porque é uma das poucas coisas boas que se pode fazer com pouco dinheiro em Curitiba. você logo encontra na fila alguém entusiasmado com a apresentação do dia, como a professora, já aposentada, que talvez desta forma preencha um pouco de seu antigo clima cultural na faculdade. professor sempre fala muito, e ela logo confessou sua paixão pela música, sublinhando que seu compositor favorito sem dúvida era Rachmaninoff. eu não esperava isso, porque Rachmaninoff me parece os artistas que vendem quadros na feira do Largo da Ordem. indicam com seu precário talento que adiante, se você seguir vendo arte, em algum momento vai ter mais discernimento e escolher uma tela muito, mas muito mais interessante, que provavelmente não estará tão disponível, dando um exemplo extremo, em uma feirinha para sua aquisição. mas não fará uma senhora tão apaixonada pela boa cultura suspirar pelos mais elevados sentimentos.


                                                             Igor Zanoni

quarta-feira, 1 de abril de 2015

A fragilidade do amor



Jesus, como explicam Albert Schweitzer e C.H. Dodd, esperava uma intervenção divina que transformasse radicalmente o mundo como ele o via, com seus conflitos, hipocrisia, violência, ganância, o mal. ele sentia sua solidão diante de sua recusa em fazer parte de uma sociedade que mantinha e promovia esse caos, e reivindicava para si a qualidade do Filho de Deus de que falavam Isaías e outros profetas, que também viam o mundo como ele via e pediram um enviado do Céu que mudasse a sorte da humanidade. isso é nítido quando diz ao jovem rico que queria segui-lo: “ as raposas tem seus covis, e as aves do céu os seus ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde descansar a cabeça”. o amor vibrante e apaixonado de Jesus levou-o à cruz, e se era Filho de Deus, este de algum modo também morreu com Ele no mesmo momento, e partilhou sua agonia. Dietrich Bonhoeffer, pastor de uma congregação  e destacado teólogo alemão, preferiu morrer com sua congregação na segunda guerra a aproveitar a chance de escapar que lhe for oferecida. ele escreveu: o meu Deus é um Deus fraco. um pensador do século XX tão destacado como Jiddu Krishnamurti também disse que só pode sentir amor pela natureza e pela humanidade quem assumir essa específica solidão, mas esclareceu que este amor é frágil, é necessário para aquecer o coração e viver uma vida adequada em um mundo tão caótico e hostil, mas não pode transformar este mundo.      


                                                                                    Igor Zanoni  

Aula de literatura




no clássico do Culto à Ciência o professor Alexandre respondia por nossas aulas de Literatura, que era uma matéria distinta de Gramática. nunca explicou nada sobre teoria da literatura ou sua história. era secretário de cultura do município e devia ter suas próprias veleidades literárias. passava as aulas lendo para a classe versos, em geral de Fernando Pessoa. não foi ruim mas tanto Fernando Pessoa me cansou com sua metafísica e seu desencanto do mundo, como em A Tabacaria, um dos prediletos do Xandoca. mais tarde Maria Bethânia leu o poeta de seu modo dramático como se estivesse descobrindo algo inusitado, mas eu achei muito chato: Fernando Pessoa rides again, pensei. acho que os autores dependem mais dos seus leitores do que se supõe, embora muitos tenham avisado isso mil vezes.


                                                                      Igor Zanoni

Carpinteiros do Universo



o Bairro Alto foi formado nos últimos vinte e cinco anos, muitas de suas primeiras casas eram de tábuas de pinho, como em outros bairros da cidade e como em todo o interior do Paraná. por isso talvez  tem uma grande tradição de carpinteiros, basta ver a grande família Pedroso. nela estão o carpinteiro Jesus e seu pai terreno José, que ajudam todos ali a ganhar o pão de cada dia, o patriarca seu José, seu filho mais velho Edson, o genro Miguel, vindo do Campo Comprido, outro bairro distante e com história parecida, e agora também ( por enquanto, que o objetivo ainda é ser profissional de skate e/ou músico) o neto Mateus e seu amigo Luiz. é claro que aqui também existe o bicho-carpinteiro, mas este existe em todo lugar onde as crianças estejam fazendo o que todas as crianças fazem e só elas sabem.


                                                                             Igor Zanoni