segunda-feira, 8 de junho de 2015

Movimento dos barcos



tudo à nossa roda é movimento
a terra eppur si muove
e por qualquer coisa dizemos
a lua girou
ou minha cabeça está rodando
gostamos quando meninos
de ganhar o melhor compasso
e transferidor
difícil fazer o pai gastar
com os melhores da loja
exceto aqueles que querem filho arquiteto
mas poetas e loucos também giram 
e sabem em que ângulos
o espírito de Deus se movia na face das águas
nosso espírito se move
para entender alguma coisa do que está acontecendo
pois agora gira e não entende
o meu pelo menos muito pouco
mas isto eu já nem tento
sentado à borda da tarde
telhados varais pardais
movimento dos barcos movimento
movimento dos barcos movimento
movimento dos barcos movimento
(ad libitum)

                                               Igor Zanoni

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Aristóteles



Atenas não poderia sonhar com a boa sorte que representaria a vinda de Aristóteles de Estagira. Ele se tornaria o filósofo por excelência para o futuro do mundo, simplificando e dando ordem e clareza a Platão seu mestre e a todos que o antecederam. À guisa de exemplo, o dualismo platônico foi transformado na unidade entre corpo e alma, tornando um causa do outro e dinamizando o ser humano por uma teleologia. A articulação entre forças produtivas e relações de produção explicando a dinâmica capitalista foi um assalto de Marx a Aristóteles, que já havia sido assaltado por Hegel e pelo liberalismo clássico. Ainda hoje Amartya Sen, por exemplo, afirma que as oportunidades que uma pessoa recebe na sociedade atualizam sua capacidade de ter saúde ou ser incluído no mercado, outro gritante assalto a Aristóteles. Mas os exemplos podem se multiplicar. Deixado a si mesmo para onde um corpo tende? É claro: ao seu lugar natural. Freud passou a vida reinterpretando tal tendência e seus dissabores quando impedida de agir com o nome de libido. A Idade Média também: para onde tendem os pecadores? Para o inferno. E os santos? Para o céu. E os outros? Para o purgatório, que é uma média dos dois. Nada mais claro. Aristóteles foi um dos homens que inventaram o bom senso na história do mundo e das ideias, o maior deles. Não era belo como Alcebíades ou um grande amante como Platão, nem sabia geometria como Pitágoras. Mas explicava tudo de modo acessível, irrecusável. Na verdade nós todos ainda somos aristotélicos. Ele foi para a filosofia o que Eric Clapton é para o blues, uma pessoa da qual todos gostam e nem podem deixar de gostar, seria difícil encontrar um bom motivo, ambos são exatos, adequados e chatos.

                                                                                    Igor Zanoni

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Operários



Em meados dos sessenta, o bairro do Castelo em Campinas era tipicamente ocupado por uma nova classe média, que todo o tempo construía casas, comprava novos terrenos, adquiria carros e se tivesse mais sorte mudava para bairros ainda mais novos e prósperos como Nova Campinas. Havia pobres, mas não muito pobres, nenhum miserável. Uma família próxima na qual eu tinha dois amigos com os quais jogava bola era composta de trabalhadores em fábricas que se expandiam ali. Via um deles, Darci, sair cedo de casa e eu procurava pensar que tipo de pessoa era ele, um trabalhador. Na Igreja Adventista que minha família frequentava havia uma grande mescla social de classe média e pobres de todo tipo, que minha mãe entre outras mulheres atendia com trabalho voluntário de costura ou cozinha. Eu entregava com meus pais essas roupas no sábado, e ia a casamentos modestos em bairros distantes, mas também se erguendo do chão. A apartação social era, sem muito discurso, evitada com trabalho comunitário, em toda Campinas havia a ideia de que mesmo os mais pobres eram úteis e necessários à sociedade e a grande margem social de hoje não existia. Quando fui fazer Economia na recém-fundada Unicamp eu gostei muito de tudo que era progressista e mesmo jacobino, mas não era familiarizado com o discurso que aprendia em Marx e outros, tudo era novidade nesse campo, mas eu assimilei bem porque tinha essa percepção cristã desde casa. Não apenas eu me sentia assim. Na sala ao lado do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas os alunos do segundo ano de Ciências Sociais tiveram a ideia de trazer para a sala um homem que era operário em uma indústria da região. Foi a estranha forma que encontraram de conhecer um pouco a classe operária.


                                                                                Igor Zanoni

terça-feira, 2 de junho de 2015

Alma



vemos algo como uma foto, um rosto, um gesto, logo pensamos o que tem a ver conosco, se nos compromete, fere ou pode nos dar qualquer troco emocional. não vemos exceto nossa imagem, viajamos cegos pelo mar  desconhecido do mundo, sua alma nos é estranha, queremos mesmo é nossa concha e nossa temerosa solidão.


                                                      Igor Zanoni

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Natureza

ser e não ser do mundo
sou e não sou


                                                            Igor Zanoni