domingo, 6 de março de 2016

Limiar

meu avô gostava de um hino
o trabalho desta vida termina
a alma observa seu destino
escolhe como viverá esses momentos
o limiar está adiante
mas ela ainda vive
e sorri para os que ama
se estão próximos
lembra o que não imaginamos
não sabemos bem o que se passa
em sua estreita passagem
apoia-se no som das vozes
irrita-se alegra-se talvez não pense
mas antes de pensar sabe algo
que não sabemos
que pertence a ela nesse momento
que fique em calma
que esteja conosco
como o próprio Senhor esteve conosco
e vimos seu rosto
ouvimos o que disse
mas agora está e não está
e nesta fímbria de ausência e pertencimento
formamos à sua volta
uma ponte bem firme
que tenhamos a precisa serenidade
e ousadia


                                                                     Igor Zanoni

sábado, 5 de março de 2016

Schelling


para Schelling é impossível aos seres racionais abrir mão da aspiração de fazer a conexão entre sua finitude e o infinito de onde emergiram. essa pergunta não pode para ele ser teórica, mas prática. a filosofia, assim, precisa tornar o absoluto, que pode não ser um objeto do conhecimento, um objeto da ação, ou demandar a ação pela qual o absoluto é percebido. o sujeito finito dá conta do absoluto unindo a si com o  infinito transcendendo o campo da experiência, deixando de ser um ser finito. parece a mim que este salto do conhecimento científico para a experiência pessoal exige que a filosofia aí precise não dar conta da razão como base da ciência, mas postular que o ser possa, para continuar sendo e assim unir sua experiência com o seu autoconhecimento, fundamentar por si mesmo sua infinitude. razão se torna ação, decisão, o ato pelo qual nos salvamos de nossa precariedade e transitoriedade. mas esta conexão é sentida como necessária por todos? talvez sim,  mas nem todos podem ter a fé que ela exige, a fé também necessária para basear a vida e suas exigências práticas de reconciliação com o mundo.

                                                       Igor Zanoni

sexta-feira, 4 de março de 2016

Redemoinho



um redemoinho d´água persiste no tempo se uma corrente contínua de água sustenta sua forma assim como as forças que não conhecemos agem sobre nós sustentando nossos redemoinhos que não percebemos e os que percebemos mas sobre os quais não sabemos ter lucidez nem possuímos possibilidade de mudança

                                                                         Igor Zanoni

quarta-feira, 2 de março de 2016

Sensação estradeira



querer você abre uma rota para mim mesmo
rota difícil
nenhum rissoles com uma média
na beira da estrada
nenhum hotel com nenhuma estrela
para passar a noite
dureza mas vamos indo
às vezes se estamos perto
bate uma sensação meiga
eu nem sei o que fazer
mas fica parecendo que é mesmo o caminho


                                                         Igor Zanoni

terça-feira, 1 de março de 2016

Liberdade

depois de adquirir o direito ao cartão com transporte urbano grátis pela Urbs ele pôde afinal acabar com o tédio de assistir ao Cidade Alerta no sofá ou a infindas missas na TV Aparecida. de manhã toma um ônibus para descer do terminal do Bairro Alto até o posto de saúde no Higienópolis e tirar a pressão, à tarde toma o mesmo ônibus para comprar pão fresco, e não perde as novenas no Guadalupe. tornou-se amigo de muitos cobradores e motoristas, sabe da vida de todos eles como eles mesmos sabem de sua vida. aos sessenta e cinco anos ganhou o efetivo direito de ir e vir e sua liberdade pessoal foi apreciada com uma sensível melhora da saúde e do humor.



                                                                     Igor Zanoni