sábado, 7 de maio de 2016

Controle

insistente o medo
de que haja um descontrole
ao qual corresponde o desejo insensato
de ordenar ao menos o próprio mundo
torná-lo calmo cosmo
flutuando paciente
entre flores de sorrisos
e uma mente tão quieta
que nela nada se ouve
nada se diz
e a demanda de entender o que ocorre
acaba sumida em paz estúpida
que não podemos ter
não cabe no mundo
impossível tamanha iluminação
tamanha revolução
de insensatas proporções


                                                                        Igor Zanoni

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Dívida


eu fico te devendo essa
e muitas outras
todo o humor e carinho
o estar ao seu lado
nos dias que impõem
a necessidade básica de um amigo
com o qual driblar
o humor com que o sol aparece
nem sempre claro e evidente
tantas vezes ambíguo e azedo
imprescindível conversar
rir cuspir tocar juntos
assim se faz amigo
assim se guarda no coração
se nos separarmos
se estivermos longe
eu me lembrarei sempre
acrescentando e inventando
escreverei telefonarei
perguntarei se mesmo tarde
posso te ver na mesma hora


                                                                     Igor Zanoni

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Obscuros


há pessoas que me cercam cujo movimento não entendo, não consigo prever nem perceber, assim como não entendo seus chistes e sorrisos, sua gesticulação, suas roupas. encontro todas muitas vezes por semana, com a secura que toda gentileza possui, e me perco sem saber do que podemos tratar a cada encontro, se é preciso tratar de algo ou se é possível. eu disse ao meu amigo que não percebia o que acontecia em uma reunião ou um encontro, que me sentia perdido, ele me respondeu que seria impossível eu ficar atento a pessoas tão obscuras, tentar adivinhá-las. as pessoas obscuras ficam assim em nós, com um sinal de menos, de falta, de incompletude, melhor isso que passar a tentar compreendê-las, sentir raiva ou outra tolice.



                                                                       Igor Zanoni

terça-feira, 3 de maio de 2016

A história como ela é


os gregos se interessavam em discutir e definir termos como beleza, o bem, o amor e a verdade, visando fins teóricos e práticos. os romanos possuíam outro temperamento. diante da Verdade encarnada, Pilatos perguntou retoricamente: “o que é a verdade?”. claro que Cristo era um rabi e o próprio Filho de Deus tão aguardado, mas Pilatos era pagão e não entendeu o que se estava passando. lendo os Evangelhos, contudo, ele parece mais cordato que os sacerdotes e a populaça insuflada por eles. mas não nos esqueçamos que os Evangelhos foram escritos por cristãos, não por judeus propriamente, tudo isso mostrando como o gênio dos povos e suas crenças e esperanças fazem da história o que ela é.


                                                              Igor Zanoni

domingo, 1 de maio de 2016

No País dos Pinhões


nos últimos tempos ­­- tempos, muitos afirmam, de grandes revelações e arrebatamento ­­­­- o país dos pinhões veio a tornar-se para muitos a república que por aqui nunca houve, e santuário de cívicas virtudes, retidão moral, decência, probidade, que prometem guiar-nos a novos céus e nova terra. não posso deixar de recordar o aforisma do venerável Tao Te King, “quando se esquece o Tao florescem as virtudes”, pois a naturalidade gentil do mundo cede lugar a uma cívica incerteza e geral animosidade, amparada nos braços da justiça que talvez prometa mais do que conviria. mas os que vivem a vida miúda do país jamais sonhariam com tudo isso, sua vida é árdua como a de qualquer habitante da república que nunca tivemos, e talvez pouco esperem, pouco saibam, ainda que muitos torçam muito, ainda mais que pelo Atlético, o Coxa ou o Paraná.


                                                                            Igor Zanoni