domingo, 8 de janeiro de 2017

Poema colagem


nós somos frágeis
buscamos o jogo livre
das potências do nosso corpo e nosso espírito
mas ao redor algo falha
algo não permite
viver é perigoso
sabemos muito bem quanto
e quando tentamos ordenar nosso pensamento
e dar inteireza ao nosso fazer
ao nosso ser
o mundo se parte à nossa volta
e dentro de nós algo quebra
eu sinto muito te dizer tudo isso
mesmo o meu amor resvala
no instante em que me avassala
mas tenho apenas duas mãos
 e o sentimento do mundo


                                                                          Igor Zanoni

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Pessoas plácidas


pessoas plácidas repousam em si mesmas
não se afligem com suas emoções
não se perturbam com seus pensamentos
sentem-se em paz consigo
e olham o dia com serena perspectiva
se as dificuldades que enfrentamos
também precisam ser vividas por elas
elas talvez digam “ora bolas”
e seguem em frente
como é leve o mundo das pessoas plácidas!
mas sua monotonia assusta
e parece que na sua vida quase nada acontece
que seja mesmo importante e decisivo
elas não são uma pilha como tantos
não se assustam com pouco
placidamente nos olham nos olhos
e perguntam o porquê de nosso incômodo
de nossa confusão barulhenta


                                                                  Igor Zanoni

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Não muito santo


eu estou sempre atrás ou adiante
e nunca comigo
os santos buscam o aqui e agora
mas eu navego voo e não sei
quando e quanto me buscar
a vida é pressa de -quem sabe?-
chegar a este ponto
eu não sei onde chegarei
mas minha mente atropela
o tempo que passo
tentando examinar esta pessoa
que aqui te olha neste pequeno poema
perguntando se é assim mesmo
ou se você também não sabe
e também não é muito santo


                                                       Igor Zanoni

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Fotografia de mamãe


na foto ela está bem à vontade, sorrindo, com um rabo de cavalo realçando sua juventude. é uma foto antiga, ela mesma faleceu há trinta anos e a foto é muito anterior a isso. mas sua beleza e soltura são ainda tão marcantes através dessa foto antiga que a mim é difícil pensar que ela viveu um dia em minha vida, também para mim, e já não existe. não posso apresenta-la a ninguém, só tenho essa foto como algo exterior e objetivo, e minha fala, calçada em minhas memórias, que um dia irão comigo, com minha própria morte, nunca antes porque o esquecimento é impossível. apenas a foto e minha fala, e além delas uma moça de cabelos com um rabo de cavalo, sorridente, bela, impossível não vê-la, impossível que ao tirar essa foto ela não tenha tido a nítida impressão de sua própria permanência, desafiando a ideia de que as coisas passam, e talvez pelo menos certas pessoas, mais do que as coisas, não passem porque formarão sempre o fundo subjetivo da humanidade, de onde partem os sorrisos, a coqueteria, a beleza, e tudo que a humanidade possuirá sempre. 


                                                                     Igor Zanoni

domingo, 1 de janeiro de 2017

Silêncio


hoje o dia foi tão silencioso
que nem mesmo ventou
apenas os motoristas e cobradores
passavam com seus ônibus vazios
pelos pontos onde ninguém esperava


                                                          Igor Zanoni