sábado, 7 de abril de 2018

Choro inútil


nós choramos
mas os olhos são geringonças inúteis
a dor que exprimem não salva
não redime
como se nós mesmos todos nós
fossemos inúteis
e algo quisesse se livrar de nós
e aos poucos se livra
algo que há muito conhecemos
mas agora mostra seus dentes amarelos
sua força nociva
para onde iremos
que canto da vida  nos cabe
choramos apreensivos
nenhuma esperança
nossa esperança foi comida
desde logo por esses dentes amarelos
por sua força podre

                                                                    Igor Zanoni

sexta-feira, 6 de abril de 2018

O anacronismo religioso


muitos de nós se sentem como pessoas religiosas. a religiosidade não precisa nem deve ser racional, mas não podemos ser anacrônicos e distantes de nós mesmos, de nossa interioridade. ouvimos,  por exemplo, que Cristo morreu na cruz para nos salvar da morte a que nos condenou o pecado. é difícil entender bem o conceito de pecado, mas digamos que seja uma transgressão contra a lei de Deus, isto é, contra uma lei de amor a Deus e ao próximo. como a morte de Jesus nos livrou dessa transgressão? segundo o relato de sua vida, como um sacrifício, semelhante aos praticados desde tempos imemoriais pelas civilizações. Cristo foi uma vítima expiatória. mas por que Deus precisou condenar seu Filho a essa morte, e morte de cruz? Ele deve ser um Deus cruel e terrível, como tantos da mais alta antiguidade, mas Cristo nos falou de um Deus de amor: Deus é amor. amor pelos homens, que exigiu o sacrifício de seu Filho. esse Deus me parece uma figura ambígua, entre o mais antigo passado e o nosso mundo. Paulo nos fala que por Adão o pecado entrou no mundo, e com ele a morte, mas Cristo nos livra do pecado e da morte que é o salário do pecado. é claro que não se pode mais pensar em Adão, como o pecado entrou no mundo? houve um tempo paradisíaco sem pecado do qual o homem saiu por sua vontade desobediente? é claro que uma vida amorosa pode nos ser gratificante e plena, mas podemos crer na vida eterna? podemos crer na ressurreição dos mortos? as histórias bíblicas são mitos e parábolas, não podem nos levar a posições muito fundamentalistas e biblicistas, mas podem nos levar a repensar nossos valores e aceitar valores como os que Jesus encarnou, de amor e doação. a mim cansa tantos pastores e padres insistiram no sangue de Cristo e no seu sacrifício redentor. Cristo pertence em muito a nosso tempo, mas muito de tudo pertence a um Jesus que viveu outro tempo e outra linguagem, que não pode ser a nossa. pelo menos não pode ser a minha.


                                                                           Igor Zanoni


quarta-feira, 4 de abril de 2018

Ai meus calos

massageie seus calos
com gosto mas com carinho
cante para eles
canções de ninar
envolva-os em meias de lã
sabe-se lá o que sofreram
nesta vida de sapatos apertados
dia quanto sinceramente os ama
seus calos também são seus pés
talvez a parte mais sofrida deles
quem sabe com o tempo e a paciência
eles se acolmodem
e iniciem com você uma filial relação

                                                                          Igor Zanoni

terça-feira, 3 de abril de 2018

Autorretrato


quero ser um homem simples e profundo
em mim bem cabem as palavras
solidão melancolia
mas também amor
fora de lugar fora de hora
impertinente flor do coração
tão meu


                                                             Igor Zanoni



domingo, 1 de abril de 2018

Deixar você



também a mim deixaram
o que você estranha?
sem maiores explicações
ou com explicações que eu não tive chance
de responder
a garganta com um nó
vou dizer uma frase banal
viver é um constante desencontro
poucos olham para trás
poucos querem rever o que viveram
levantam um brinde sem graça
à vida que também os vai deixando

                                                                             Igor Zanoni