quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

Pássaros


Quando os gritos dos quero-queros

Ressoam no ar

Percebemos a imensa abóbada

Que nos envolve

Seu som é límpido

Longe dos motores de autos

Muito além do murmurinho

Do bairro

Os pássaros vivem sua vida particular

Não se importam conosco

Exceto se nos aproximamos deles

Então voam e gritam

Muito alto

Além do silêncio ao redor

Da cúpula de luz e vazio

Que nos envolve


                                                                Igor Zanoni

 

  

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2025

Pai


Kafka e Graciliano escreveram

Sobre seus pais

Eu tenho dificuldade em escrever

Sobre o meu

Ele já morreu há bom tempo

Que siga sua jornada

Pelo vasto hades

 

                                                          Igor Zanoni 

terça-feira, 4 de fevereiro de 2025

Reencontro


Ontem depois de muito tempo

Nos encontramos de novo

Falamos do passado e do presente

Rimos tomamos café com bolo

A saudade é um bom condimento

Para reencontros

Eu me senti feliz

Mais do que costumo ser

Eu estava tão alegre

Que isso ajudou nossa renovada

Amizade

Embora eu tenha me excitado demais

E depois me cansado

Custei a pegar no sono mais tarde

 

                                                 Igor Zanoni 

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2025

Curiosidades


1

Hoje assisti de novo “O pagador de promessas”. As cenas em que a multidão corre para todo lado na praça e na escadaria frente a Igreja de Santa Bárbara faz recordar Eisenstein, mas o filme, brasileiro e nordestino, de Anselmo Duarte, ganha todo o sabor de Dias Gomes, seu roteirista, quando Leonardo Vilar é colocado na cruz e levado igreja adentro sobre os ombros da população.

 

2

“A página assombrada por fantasmas” (2011), do ainda jovem Antônio Xerxenesky (1984) é uma coleção de contos curtos lembrando autores de literatura e gêneros os mais diversos. O livro é pequeno, mas o autor se assume nele como um contador de histórias. Difícil fazer uma resenha do livro. Melhor lê-lo.

 

3

O camelo bebe água doce mas pode beber também água salgada, inclusive a água salobra do rio Jordão.

 

                                                         Igor Zanoni 

domingo, 2 de fevereiro de 2025

Carolina maria de Jesus, Casa de Alvenaria, volume dois, Santana.


Este é o segundo volume de “Casa de Alvenaria”, publicado em 2021 pela Companhia das Letras. Reúne diários escritos entre dezembro de 1960 e dezembro de 1963. A casa foi comprada em 1960 no bairro de Santana por intermédio de Audálio Dantas.  Na verdade, a casa já estava alugada e passou um bom tempo para a autora poder apropriar-se completamente dela. Além disso a casa tinha pulgas e baratas e isto demandou um grande trabalho de Carolina. Ela reclama muito da casa. Com o dinheiro, pouco, que lhe vem de direitos autorais de “Quarto de Despejo”, Carolina passa a ser vista como rica pelos vizinhos e conhecidos, e muitos lhe pedem incessantemente dinheiro emprestado. Em compensação, o livro tem grande tiragem em 1960, sendo traduzido para vários idiomas e publicado em mais de 40 países. A autora faz um grande tour de divulgação do livro, visitando o interior de São Paulo, Porto Alegre, Recife, Argentina, Uruguai e Chile. Ela também lança pela Fermata um disco com suas composições musicais e é sempre convidada a declamar seus poemas. Também conhece pessoas ilustres, como Brizola, Adhemar de Barros e Jânio Quadros. Seu político favorito será sempre Adhemar. Ela permanece focada no problema do custo de vida e da fome do pobre no Brasil. Os funcionários públicos com parcos reajustes e a inflação crescente a indispõem com Juscelino, Jânio e João Goulart. Ela pensa que os trabalhadores rurais são espoliados pelos proprietários e vêm tentar a vida em São Paulo, mas ali encontra um custo de vida alto que os obriga muitas vezes a viverem sem emprego e na favela. Em 1963 Carolina compra um sítio em Parelheiros, para poder plantar e fugir da alta dos preços dos alimentos. Encontra-se com poucos recursos e revive uma vida quase tão pobre quanto sua vida anterior à casa de alvenaria.

 

                                                                    Igor Zanoni 

Dor


Não é uma grande catástrofe

Todas as casas escondem uma

Mas para quem as vive

É um doloroso padecimento

Para quem está em volta

Trata-se uma dor irreparável

Mas é necessário tomar providências

Agir com sabedoria e muito trabalho

A casa não se fecha sobre si

Sempre é possível sair ao jardim

E respirar o ar das plantas

E da chuva

Enquanto não se diz adeus

 

                                                                Igor Zanoni 

sábado, 1 de fevereiro de 2025

Visita


1

As ruas deviam ter placas de cobre

E nas esquinas figuras de anjos

Elas têm sempre nomes de pessoas falecidas

Com esses adornos lembrariam melhor

A cidade como um grande cemitério

 

2

Visitar pessoas frágeis e debilitadas

É difícil para quem é saudável

A conversa se torna cálida, mas entristecida

Gostaríamos de poder fazer o que não podemos

 

                                                           Igor Zanoni