quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Simples


poemas simples de Manuel Bandeira
ou seu xará Manuel de Barros
provém de meditada elaboração
a simplicidade surge sempre como requinte
da linguagem da arte
o resto é rusticidade
os rústicos não são simples
são ingênuos e rústicos
ou ardilosos
como é ardiloso o Jornal Nacional 


                                                                    Igor Zanoni                                         

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Pesadelo

 
As últimas eleições presidenciais no País passaram como um longo pesadelo. Vizinhos se tornaram inimigos, famílias se desavieram pelo medo de que o aborto fosse legalizado, como se já não o fosse, nos quadros legais existentes, ou que o casamento gay fosse aprovado, o que não é um problema moral ou religioso, mas um simples regulamento para que casais homossexuais legalizem sua situação patrimonial. Em outras eleições os sem terra foram elevados á distinta condição de inimigo número 1 da ordem capitalista, esquecendo a Pastoral da Terra e o longo curso teológico em que bebem as reivindicações por terra no Brasil, mais importantes que tons socialistas ou marxistas. Apesar de eu não ser o primeiro a defender o atual governo Dilma, não serei também o primeiro a atacá-lo. Os interesses dominantes no Brasil concentram-se na mídia, e no seu poder de convencimento sobre os mais desavisados, referente a tudo que se passa no mundo. Ao lado dele, há os interesses do sistema financeiro, com sua garra sobre o que se faz  em termos de política monetária e fiscal. Há ainda os interesses dos setores exportadores onde se destaca o agronegócio que hoje ameaça a Amazônia e produz anualmente enormes extensões de terra inutilizada pela selvageria da agricultura tecnificada e oligoplizada. Os outros interesses pouco contam. Faz-se o bolsa família, aumentam-se um pouco os salários reais de aposentados, repõem-se vagas no setor público, mas tudo com comedimento. A presidente Dilma disse aos jornais que o Brasil hoje é “uma potência agrícola”. Ora, já éramos isso no século XIX, e pulamos por cima do esforço industrializante de Getúlio Vargas, Juscelino Kubistchek, entre outros, e esquecendo a destruição de nossa indústria e do patrimônio nacional, público e privado, pelo neoliberalismo de Collor, Sarney e Fernando Henrique Cardoso. A presidente tenta limitar a sanha do Banco Central, mas não pode parar Belo Monte, pois é obra central no PAC-Programa de Aceleração do Crescimento, visando fornecer energia para a produção de alumínio para exportação, de quebra inundando terras indígenas de diversas etnias e patrimônio cultural e linguístico. Poderíamos ainda falar no absurdo que é a transposição do São Francisco, obra momentosa de que quase se deixou de falar. As pessoas que pouco acesso tem à educação falam de um Brasil corrupto, de um País que precisa ser privatizado, como se repetissem tudo o que o Jornal Nacional prega. Isso é pior que música sertaneja, é um ultraje à inteligência de quem conhece o Brasil e sua história.

                                                            Igor Zanoni

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Minha religião



Não sou ateu militante, talvez sequer seja ateu ou irreligioso. Mas penso a religião, como belamente exprimiu Rubem Alves, como o suspiro dos oprimidos, ou diretamente como Marx, como o coração de um mundo sem coração. Vejo nas suas melhores manifestações a religião como a espiritualização do desprazer da existência, ou como o tornar sublime -sublimar- a dor que o mundo nos cobra, pelo menos á maioria das pessoas, e a mim também. Só assim ela se torna um bálsamo, um analgésico potente como o ópio para o povo. É também possível ver a religião em seu lado mais humano, despida dos seus obsessivos rituais, seus paramentos imponentes, sua disciplina de um pai férreo. Lembro-me de uma passagem na qual Madre Teresa de Calcutá socorreu em seus braços um homem caído, muito doente, e este lhe perguntou: - Mas eu sou um intocável! O que a senhora está fazendo? Qual é a sua religião? Ela respondeu: - Minha religião é você. Esse humanismo me toca, e penso que, ao contrário do que dizem, que todas as religiões são boas, nenhuma é boa mesmo, mas uma certa religiosidade faz falta a muitos.

                                       Igor Zanoni

Heróis


difícil distinguir sonho
lembrança devaneio
a vida é túnica inconsútil
que tecemos em várias direções
as relações se transtornam
tornam-se sementes de muitas
histórias
sem ordem apenas um desejo
que contém em si outros
por uma curiosidade infantil
que nos acompanha para sempre
somos aí nossos heróis  
contamos aos outros o que somos
se é que somos
e assim mal saciamos
nossa vitalidade

                                              Igor Zanoni

domingo, 27 de novembro de 2011

Amar


pelo menos os neuróticos como eu vivemos em um mundo sem muito amor e sem prazer. sustentamos muitas vezes situações adversas por longo tempo sem acreditar que prometam mais do que estão dando e ficamos assim. também as pessoas que amamos são objeto de curiosa e intensa  expectativa, de que ajam como sonhamos ou falem a palavra que esperamos, mas é claro que nada disso acontece. e há mesmo pessoas que nos amam, desde que nos contentemos em permanecer nos seus parâmetros e aí ou sofremos e mantemos uma relação ambígua ou deslizamos culpados para fora, retornando de vez em quando, tentando adormecer com muitos comprimidos de rivotril, ou eventualmente deslocando o outro para dentro do nosso âmbito, e aí sendo feliz enquanto o outro decididamente não pode. a teimosia não vence muitas batalhas, se é que já venceu alguma. às vezes sabemos o que se passa, estamos a ponto de dizer, mas crises temperamentais do outro, dos filhos, dos que estão em volta de diversas formas, nos tornam covardes. é melhor ir embora que fazer uma carreira no Itamarati para suportar algum desses que estão em volta. muitas vezes são intocáveis, já experimentou desdizer uma matriarca como sua sogra ou um prepotente como seu pai? por isso nós neuróticos lembramos o velho adágio: “viver é perder amigos” e, é claro, ilusões de amor, de paz, de felicidade. mas dá para manter o bom humor se tivermos paciência suficiente.

                                                        Igor Zanoni

sábado, 26 de novembro de 2011

Legião

 
dizem que deus e o diabo
eram um só
como o pai é esse cara duplo
assim como caim e abel eram irmãos
e adão e eva um só
dizem que no princípio havia o um
mas em nós há muitos
há toda uma legião
de anjos e demônios

                                                                                                                                   Igor Zanoni

Nervoso

 
se estiver nervoso
arranhando a própria pele
andando camuflado de cidadão na rua
por dentro um inimigo público
de si mesmo
não beba não beije não escreva
sente sozinho
mas não leia não ouça musica
não tente pensar
a paz é uma árdua conquista
não definitiva
nós existimos sob o império do não
sobre o mundo há um não
então sente sozinho
a noite pode durar
dias podem vir
você pode se danar
mas veja outra hora o que pode fazer
agora não

                                                                              Igor Zanoni