quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Encontro


podemos partilhar nossas vidas
com outras pessoas
mas para isso é preciso
que elas desejem
partilhar suas vidas conosco
quando as duas coisas
por felicidade acontecem
vivemos todos um encontro
bem como sua antítese e complemento
o desencontro

                                                                            Igor Zanoni

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Costura

Mamãe estudou e aperfeiçoou a vida toda suas habilidades em corte e costura. Costurava com moldes, como aprendeu com outra exímia costureira, dona Leontina, esposa do mecânico de papai, seu Wilson. Até sair de casa eu nunca usei roupa comprada fora. Ela fazia para mim golas do tipo que o Ronnie Von usava, e calças justas como as do Roberto Carlos. Era uma mulher moderna. Aprendi muitas dessas habilidades com ela, pois hoje ainda sei cerzir, chulear, pregar um botão ou fazer costuras simples. Não sei o que aconteceu com os seus moldes, acho que minha irmã Ivone herdou. Aprendi a decorar as roupas que ela fazia, com pintura em tecido, strass e purpurina. Como passasse muito tempo com ela, aprendi outras artes como cozinhar o trivial, matar e depenar um frango, fazer uma farofa para recheá-lo e cortá-lo em pedaços sem osso. Também comecei a ir ao cinema com ela, para ver a Imperatriz Sissi e os filmes de Alain Delon, que na época achávamos o homem mais bonito do mundo. Papai às vezes cozinhava, uns vatapás com creme de arroz ou bacalhau ao forno que comíamos em ocasiões festivas como o Natal, bebendo uns goles de Casal Garcia. Mas o dia a dia era com mamãe. Depois soube que papai ia ao cinema sozinho ver filmes de James Bond. Foi uma decepção gosto tão raso. Mas mamãe nunca conseguiu, embora tentasse, aprender inglês. Não se recordava do vocabulário e das regras gramaticais. Na época havia um casal na igreja que havia vivido nos Estados Unidos e ensinava a língua aos irmãos. Eu não me preocupei com isso porque também não gostava de inglês. Meu forte era o francês. Quando comecei a faculdade li Descartes, Hume, Kant e outros em francês, sem problemas. Já meu querido Marx li nas edições castellanas da Siglo XXI e a tradução do Capital de Wenceslao Roces. O melhor da vida são essas pequenas coisas que nunca esquecemos. È o nosso luxo pessoal.

                                                                      Igor Zanoni

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Mundo


o mundo tem nome diferente
em cada lugar
viver tem sentido diverso
em cada boca
cada um percebe seu próprio
lugar no mundo
diverso até do seu vizinho
se há algo que muda somos nós
mas ainda mais muda o mundo


                                                           Igor Zanoni

Família


não há nada menos ambíguo
que ideias pré-concebidas
e que se deseja realizar
sobre e na família
acredito que é preciso
ser delicado
nessa trama imprecisa
de desejos e arrepios
olhar com cuidado o filho
a mulher
ser sereno quando alegre
ou quando triste
não traçar muitas perspectivas
o sábio disse que os filhos
partem de nós
mas possuem seus próprios
interesses e desejos
ainda menos clara á a esposa
se nós mesmos somos obscuros
outro sábio disse que é preciso
duvidar de tudo
eu aprendi a duvidar desde logo
de mim mesmo

                                                   Igor Zanoni

Senso estético


Seu Luís, meu falecido sogro, era  um homem com um senso estético para viver a vida. Inquieto, fumava muitos maços por dia de cigarro, acordando para isso inclusive várias vezes à noite. Nunca deixou de ter êxito no que fazia. Teve a maior e mais aparelhada sorveteria de Maringá, montou um escritório de contabilidade grande e moderno, com máquinas elétricas de escrever, depois comprou uma picape e saia pelo Brasil recolhendo mudas de orquídeas e bromélias, em um tempo em que o Brasil era grande e não havia o Ibama, chegando a ter um dos maiores orquidários de plantas nativas. Fazia por hobby difíceis diagramas de palavras cruzadas que mandava para jornais, conhecia marcas boas de uísque e amava a música. Suas filhas estudaram muitos anos de piano, e seu maior prazer era chama-las para tocar para as visitas. Depois um dia a vida de desandada que estava terminou de desandar, mas nunca soube o que acontecia de fato com ele. Foi um poeta de atividades, um reinventor do inventado, um homem inconcluso, que ninguém acompanhou, muito menos sua família. Era extremado, pegadiço, exagerado. Sua família o mantinha a distância, e talvez por isso tenha tido outra família. Ao todo deixou seis filhas e um filho. Alguns o amaram, outros o aborreceram, mas sempre singular, nunca permitiu meias opiniões sobre si. Diante dele se optava pelo oito ou oitenta. Não deixou bens e seu túmulo ficou próximo da sua família de origem, longe das que criou.

                                                              Igor Zanoni

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Felicidade


estranho essa insistência das pessoas
em serem felizes
muitas vezes com alto custo
quando a história da humanidade
é uma sucessão de tragédias
e os homens mais admirados
serem sábios sofridos
como Jesus Gandhi ou São Francisco
sofridos mesmo sábios
estranho seu apego a si mesmas
quando a morte é o destino inelutável
o gosto que tem pelo mundo dos relojoeiros
quando a vida está todo o tempo
quebrando molas e eixos
deixando à mostra o coração de rubi
que até os relógios costumavam ter

                                                    Igor Zanoni

Primordial


não há uma verdade essencial
originária e inerente
toda verdade existe dentro de situações
e do modo como as vemos
por isso as nossas verdades
são a outra face das nossas mentiras
e as mentiras bem podem ter
no nosso mundo
um lugar fecundo e crucial
quem busca um sentido primordial
não pode encontra-lo
fora da maneira como é concebido
e toda sabedoria é uma forma
de ignorância
o sábio disse: só sei que nada sei
o melhor caminho é investigar-se
e levar outros a praticar consigo
bebendo mas sem se embriagar

                                                                       Igor Zanoni