sábado, 28 de abril de 2012

Reconhecimento


1
Outro dia em uma aula de sociologia aprendi que tolerância, um conceito que sempre me pareceu respeitável, indica tolerar aquilo de que não se sente próximo, ou com o que não se simpatiza. Um conceito melhor, explorado por Nancy Fraser, é o de reconhecimento, desde logo, reconhecimento de direitos e de estado, reconhecimento de si no outro, na diferença do outro. Achei bem iluminista, uma visão muito otimista dos homens, pois eu mesmo sei o que tolero, e não é pouco, e o que reconheço, muito menos. Pode-se dar um conteúdo positivo a isto, legislar sobre, mas reconhecer é um ato quase evangélico. Neste mundo em que os emo’s vivem apanhando dos skin-heads, como buscar reconhecimento a quem está em lugar na vida injusto e malvisto? Bem, preciso assistir mais aulas de sociologia.

2
Li no jornal que um empresário, o sr. Ioschpe, declarou que elevar os combalidos salários dos professores não eleva a qualidade do ensino, como indicam pesquisas empíricas em diversos países. Para ele, o salário do professor não garante maior competitividade à nação. Eu poderia responder como economista, liberal politicamente, não economicamente, mas vou responder como professor. Como tal penso que todo assalariado deve ganhar um aumento de salário, além de melhores condições de trabalho, em geral humilhantes. O governo gaba-se tanto do Bolsa Família, mas deveria distribuir dinheiro também para quem não é pobre. Não decerto os ricos, mas os remediados, os medianos, seria ótimo. Antes da competitividade do Brasil eu penso na vida boa de cada um, que depende mais de valores e de  muitas outras coisas em que o Brasil nunca foi forte. Viver de salário já não é bom, imagine ter de trabalhar sobre conceitos como o de reconhecimento e tolerância pensando na competitividade. Qualquer professor chinês iria rir de mim. Minha aula não vale um quilo de agrotóxico da Monsanto ou um saco de japonas chinesas feitas para uma grande marca. Quem precisa de mim é gente que gosta de viver bem e não vive, é com isto que me preocupo.


                                        Igor Zanoni

Gato


todos queremos ser felizes
ferozes fazemos planos e conluios
para vencer a luta do dia a dia
derrotar os que elegemos inimigos
sermos felizes demanda recursos de poder
não uma benigna disposição de espírito
construímos imagens e discursos
até nosso andar se deforma
como é importante a felicidade
mesmo à custa da alegria
da bondade da natural disposição
de qualquer gato para o qual basta
um lugar quente e um colo!

                                                    Igor Zanoni

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Horta


o Brasil antes era uma beleza
em qualquer quintal se fazia uma horta
um caramanchão de maracujá
pés de abóbora como mato
chuchu mandioca limoeiro
no jardim se plantava rosas
crisântemos margaridas gérberas
gerânios ao pé das janelas
eu peguei esse tempo
hoje se você tiver um espacinho
não adianta plantar nada
precisa comprar semente certificada
nada germina nada cresce
segundo as leis de deus e da natureza
por isso essa fome
essa necessidade que os pobres têm
das esmolas do governo
pode isso?

                                                       Igor Zanoni

quinta-feira, 26 de abril de 2012

A.P. Tchecov


como médico cujos limites conhece
o escritor observava descrevia
com exigente humanidade
não julgava
os  críticos diziam que sua arte
 não tinha princípios
mas tampouco era fácil para eles ver
que não é privilégio divino
estar conosco


                                                              Igor Zanoni

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Tostói


Tolstoi

1
cortei o açúcar da minha dieta
vou evitar algumas doenças
mas não evitei minha morte

2
                                                        o mais doloroso nos textos de Tolstói           
não são as tragédias que eles narram
mas a tragédia do homem
que as escreve


                                          Igor Zanoni

Mistérios





a vida e a morte são misteriosas
mas em que consiste o seu mistério?
no fato de não sabermos jamais
como elas se fazem
um dia nos percebemos vivos
planejamos isto e aquilo
casamos temos filhos separamos
temos tantos planos
e ao mesmo tempo tantos sentidos
se ganham e se perdem
não dominamos esse curso
um dia uma amiga nos liga
                                                                               não estou bem           
e pressentimos: minha amiga vai morrer
e embora vá ao médico e tudo mais
parte na noite como uma gota de chuva
suave se perde na terra
mas para nós como um abalo enorme

                                                  Para Osny

                              Igor Zanoni

domingo, 22 de abril de 2012

Amar


é difícil amar alguém
exige não uma disposição para o assombro
e fascínio
uma humana vontade de prazer
mas é claro inteligência
elegância
não ser um juiz de moral e bons costumes
amar exige se fazer disponível
para reconhecer
não para tolerar
como a música o amor é
dez por cento de intuição
e noventa por cento de trabalho
além de uma atenta observância
sobre si mesmo


                                                     Igor Zanoni