sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Rosto


eu não procuro o rosto
de quem me atrai
olho aos poucos
com cuidado
por timidez e medo
de que o vínculo que vivo
se desfaça
mas busco o contato
falo um pouco
procuro ocasiões para ouvir
nenhum momento para isso
passa sem que eu perceba
lento eu me aproximo
dilato os momentos
busco correspondências
muitas vezes me iludo
e o enleio passa
mas a ilusão é cálida
e quase basta

                                                             Igor Zanoni

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Terapia


1
nem sempre convém o conselho
para que fulano e sicrano façam terapia
e se compreendam
a terapia não serve para tudo
mesmo o suave Jesus teve seus momentos
chamava por exemplo os fariseus
de hipócritas para baixo 

2
às vezes é impossível restaurar
um corpo teórico ou filosófico
para distinguir quem pertence ou não a ele
se alguém se disser ligado a um ou a outro
deve-se aceitar a filiação
muitas vezes fazer o oposto é tentar descobrir
o rosto original do homem 
ou de um venerável faraó

                                                             Igor Zanoni

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Gentio


1
após acabar com as missões
os paulistas escreviam a El Rey
que no sertão havia milhares de gentios
que passavam o tempo 
comendo-se uns aos outros
razão pela qual melhor seria torná-los cativos
pois valiam bom preço
e ainda se podia torná-los cristãos

2
na minha adolescência os rapazes comentavam
essa menina é bonita
só precisa de um lustre de cultura
dinheiro ninguém tinha
cristãos todos éramos
depois dos cursilhos da cristandade
mas precisávamos das meninas
que também só sabiam 
perder tempo


                                                           Igor Zanoni

domingo, 25 de agosto de 2013

Babilônia


bem cedo na vida achei-me às margens
do rio de minha tristeza
e me senti cativo na poderosa Babilônia
os que estavam ao meu lado 
pediam a mim isto e aquilo
que eu cantasse e dançasse
conforma a música que sabiam
mas lembro de muito tempo 
em frente aos canais
silencioso só
 vendo pela janela meu estreito mundo
quando a casa estava quieta 
e ninguém me chamava
e eu mesmo como podia me acudia

                                                                 Igor Zanoni

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Miragem


há tantas miragens na vida
quanto em um deserto
os que o atravessam 
não as distinguem logo
são tão convenientes as miragens
que ninguém admite depois
como se pôde iludir
é difícil viver de modo realista
seria insuportável 
mas se é assim aceite-se a desilusão
como destino
e parta-se para outro destino
há tantos até em uma rodoviária 


                                                                      Igor Zanoni

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Estória


João, 45, casado com Marta, 42, dois filhos, uma mocinha de 15 e um garoto de 8, encantou-se com Maria, 42, casada com Pedro, 45, dois filhos, uma mocinha de 16 e um garoto de 10. Houve dois tumultos familiares. Pedro e Marta lamentaram os anos de casamento, agora considerados perdidos, e concluíram que o caso foi uma grande asneira, pois João e Maria teriam trocado afinal seis por meia dúzia. Mas estes não concordaram e consideraram sua estória agora mais coerente. 


                                                     Igor Zanoni

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Pessoas intranquilas


um rapaz de jaqueta manchada, estilo militar, entrou na Casa das Bolachas, perto do prédio da Reitoria, e pediu biscoito. o dono estava atendendo uma senhora, e disse que logo o atenderia também. o rapaz insistiu e o dono lhe deu umas bolachas de chocolate em um saquinho, pedindo um pouco de paciência, mas o rapaz jogou o saquinho no chão com força, dizendo que não eram as bolachas que queria. saiu falando alto da loja e foi até a cantina das Ciências Sociais, onde pediu várias coisa gritando, sem passar antes no caixa. depois  ameaçou outros estudantes e começou um discurso sobre tudo, até que alguém decidiu chamar o Samu para atender o rapaz. pouco antes, um jovem parou sua bicicleta em frente à papelaria que há em frente à mesma Casa das Bolachas, perguntando ali porque as pessoas o estavam seguindo. pensando que fosse apaziguá-lo, alguém na loja lhe deu vinte reais. o rapaz saiu mas voltou em dois minutos, declarando que não queria que ninguém o seguisse mais e só queria viver tranquilo. 

                                                                 Igor Zanoni