sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Mocinhas


Mocinhas

dessas mocinhas mal se sabe
são de éter são de giz
branquinhas no rosto atraentes pintinhas
serão meigas polaquinhas
saberão iídiche e amarão
Scholem Aleichem e o Baal Shem Tov  
tudo conhecem na cidade
sua fundação e novidades
vez ou outro um comentário nos aproxima
um brevíssimo sorriso uma pequena ironia
como recebemos bem suas dádivas!
são pequenas flutuam no corredor
elegantes bem vestidas
como conseguem tudo
desse iniludível ar vienense


                                                              Igor Zanoni

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Pílula da felicidade


Pílula da felicidade

1
para um psiquiatra, ter dificuldade em ir ao trabalho é um sintoma por excelência no diagnóstico da depressão. para mim, é um sinal claro de amor à vida e à própria pele, logo, de ótimo juízo.

2
quando saiu o Prozac, foi chamado de “pílula da felicidade”, capa de inúmeras revistas, e pacientes e psiquiatras, aliviados, só confiavam em uma receita de fluoxetina. não foi nada disso, é claro. os laboratórios farmacêuticos vivem disso, de uma promessa de felicidade que nunca se cumpre. mas às vezes eles erram, e criam algo que parece realmente bom. em muito países, como o no Brasil, havia um medicamento muito indicado para insônia e ansiedade aguda chamado rohypinol. você tomava um comprimido e nada acontecia, tomava mais um e novamente nada. mas no terceiro você entrava em um estado de serenidade e beatitude semelhante ao da Virgem Maria quando recebeu a visita do anjo anunciando Jesus. todos tomavam, não dormiam, nem queriam nesse momento tão beatifico, e o medicamento foi sagrado como hippienol. essa foi realmente a pílula da felicidade. Nos Estados Unidos foi proibido, por seus graves efeitos colaterais, no Brasil não, mas acho que poucos médicos o indicam.

                                                                  Igor Zanoni

Amor


nós não nos bastamos
somos todos insuficientes
por isso os desejos
a busca do outro
mas o encontro traz dificuldades
não podemos agora ser o que somos  
retornaríamos à nossa constitutiva
insatisfação
talvez amemos apenas a nós mesmos
mas se não nos movermos daí
como nos detestaríamos


                                                          Igor Zanoni

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Movimento

eu me despeço devagar
do que desmoronou
meu olhar o vê ainda
em câmara lenta
passo o filme até a obsessão
nos meus secretos desvãos
revelo mudando o tempo
os cortes as cores
infinitas fotos impossíveis
enchem meu museu inútil
não espero senão o que passou   
o que está para sempre aqui
mas não mais comigo


                                                                      Igor Zanoni

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Kurki


Kurki foi uma das pessoas de que mais gostei, embora a maioria sequer o compreendesse. sua família era de origem finlandesa, e havia saído do seu país na época da guerra com um nome fictício, algo como “duende” ou parecido. havia prestado concurso na economia da Unicamp, e entendia muito de temas então pouco conhecidos, como topologia. fui seu aluno no mestrado, nas aulas enchia a lousa de signos que eu não entendia e ele pouco explicava, embora fizesse um esforço nesse sentido. morava em São Paulo, e certa vez num momento da aula parou subitamente sua demonstração dizendo que precisa ir para não perder o ônibus.depois o encontrei em Curitiba, pois havia tido problemas na Unicamp por sua intermitente dificuldade de trabalhar. o Instituto Paranaense de Desnvolvimento Econômico e Social fazia então um grande diagnóstico sobre as transformações socioeconômicas do estado na década de sesetenta, e eu também havia sido contratado para trabalhar nisso. naquela época o estado pagava bem, e kurki , eu e outro amigo alugamos uma casa grande e confortável no Jardim Social, que era o melhor e mais caro bairro da cidade.comecei a descobrir sua incrível facilidade para tratar de temas complexos sobre os quais pouco havia lido. um anoite um amigo que coordenava o diagnóstico visitando de quando em quando Curitiba e estudava muito o pensamento de Marx, começou a falar que não entendia bem o conceito de tempo neste grande pensador. kurki começou a fazer alguns raciocínios e a desenvolvê-los, acabando por dar uma verdadeira aula sobre algo em que nunca pensara sistematicamente. esse amigo rotulou kurki de “gênio louco”, o que era a mais cristalina verde. mas como não consegue trabalhar também no Instituto, depois de algum tempo voltou à Unicamp onde continuou a trabalhar com muitas licenças médicas interrompendo seus cursos e pesquisas. quando fui fazer o doutorado, curiosamente e sem saber, aluguei uma casa no Castelo ao lado da de Kurki. foi o que bastou para fazer do doutorado uma festa.  estudei mais com ele que na Unicamp, comecei a fazer psicanálise na mesma clínica que ele e conversávamos sobre o mundo e mais um pouco. era muito avarento e decidiu entrar na Justiça, ganhando uma liminar, contra os donos da casa que alugava, que para ele estava precisando de reformas que não cabia a ele fazer. ficou comodamente ali, sem sair ou atender à porta às vezes por uma semana, pensando obsessivamente na vida e fumando sem parar. tinha um problema particular com seu pai, que havia morrido de enfisema, e com sua mãe, cujo filho “não tinha coração para ver sua dor”. depois de um tempo a casa estava um caos, no tempo das chuvas
ficava dias na cama, único lugar onde a chuva não entrava na casa. de manhã, quando acordava colocava uma caneca sobre o muro em frente à nossa cozinha para receber café que Estelita lhe fazia. foi internado ali mais uma vez, no Hospital da Unicamp, levado por mim e uma de suas duas antigas esposas. afinal perdeu a casa e estava para ser demitido por justa causa quando o grande Waldir Quadros, que dirigia o Instituto de Economia, conseguiu convencê-lo de que devia se aposentar e de fato o aposentou. depois passou um tempo a viajar pelo interior de São Paulo, com seu velho Corcel II, visitando os parentes de sua primeira ex-esposa, que amara muito. vez ou outra me visitava em Curitiba, para onde eu havia voltado e reatávamos conversas infindáveis. foi um grande amigo, intelectual de primeira, mas poucos o entendiam e ele menos ainda. sobre Kurki haveria ainda muito a contar, mas isso basta para esculpir sua legenda.


                                                       Igor Zanoni