sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Ideias Soltas



ideias interessantes não precisam
formar teoremas
a ignorância não ajuda ninguém
mas a sabedoria não se deixa mostrar
com facilidade
tantos doutores apanham seus currículos
e partem para a vida
como microempresários de si mesmos
a ideologia não admite sensibilidade
mas sabe montar belo espetáculo
a teoria é árdua e necessária
mas o titanic está vazando
melhor deixar que as pessoas
possam ter ideias soltas
e aos poucos se soltem a si mesmas
elas sabem sim dar um jeito nisto



                                                                  Igor Zanoni


                                                                      

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Gatos


Georges Simenon escreveu um livro, muito conhecido entre os adeptos dos seus romances, chamado O Gato, no qual transfere ao leitor com um rigor analítico todo a psique e o eros de um gato. Nunca um gato fascina como o gato de Simenon, mesmo com seu conhecido dom de fascínio e personalidade insubornável. Baudelaire também escreveu um soneto memorável ( começava assim, desculpem o francês que esqueci: les amoreux fervents e le savants austères aiment également les chats, orgueil de la maison, qui comme eux son doux e comme eux son frileux ), tão memorável que foi analisado por um famoso linguista pelo método estruturalista ( nessa época o auge da linguística foi o Curso de Saussure que era lido no curso básico de Ciências Humanas ). Claro que ninguém havia entendido até ser explicado por esse erudito todo o rigor, a luminosidade, a suntuosidade de Baudelaire, foi o que deve ter pensado tal erudito, não me lembro o seu nome mas é conhecido, hoje se acha fácil no google que é o vasto depósito moderno de todas as coisas ainda que não se saiba quem as colocou ali embora com certeza estejam. Penso que é óbvio, aliás quase sempre só consigo pensar o que é óbvio, que os seres que nos atraem são para nós sempre um tanto de gatos, partilhando de sua essência fugaz e luminosa. Quando amamos alguém, quase nunca sabemos por que exatamente, ficamos um pouco obsessivos pelos menores movimentos desse ser, pelos insignificantes sentidos que uma manifestação sua possa ter nos ligando a ele ou nos separando para sempre. Como alguém que sai ao quintal para ver a lua, vê um gato branco sobre o muro. O seu olho devolve a luz do quintal, pára um segundo com os músculos prestes a saltar para o terreno ao lado e o alguém fascinado arrisca um miserável: psi psi psi aqui bichano...     



                                                    Igor Zanoni  

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Fragmentos


nossa alma há muito tem sido expropriada, todos estamos perplexos porque já não podemos ordenar um pouco que seja nossa energia vital mas antes encontrar um menu com desejos mantidos em frigoríficos e já sem nenhum vestígio de nutrientes para os ossos a mente etc. todos somos seres pensativos mas os pensamentos são vigiados assim como qualquer ação como roubar ir à igreja procurar um emprego ou comprar um carro financiado. há uma ordenação que passa por muitos centros esses sim articulados em uma álgebra que não compreendemos ao certo mesmo que tenhamos estas e aquelas suspeitas. o que sabemos bem é de como somos expropriados no aluguel nos juros na passagem nos impostos no trabalho no amor na comida nos medicamentos na natureza que some no mar que se torna um deserto em tantas fronteiras que se desfazem em uma liquidação geral de tudo e reencontramos no sonho e, antes dele, na dificuldade de adormecer. algo que por circunstâncias várias em particular doa ou para cuja dor tenhamos definidos cúmplices tomamos como ponte para nosso corpo que vamos perdendo e nos tornamos ligados a esse fragmento de nós ainda que seja apenas por enquanto um fragmento e não uma totalidade um ser integral se isto existirá ou existiu. em circunstâncias críticas infinitos designs de fragmentos se tocam e agem em conjunção inesperada.  algo como o prenúncio de uma solidariedade futura somos capazes de ver, ainda imatura, problemática, esperando ainda que, como o apóstolo Paulo, “contra toda esperança”.

                                                      Igor Zanoni    

Falta de amor

naqueles  idos fui com um jovem amigo da casa à papelaria para descobrir com ele que o dono do negócio tinha uma filha e que esta não apenas estava crescida mas exatamente naquela época em que muitas moças parecem prever uma falta de amor no futuro com a ansiedade com que ambientalistas preveem o fim da água no planeta. eu sou um homem já velho mas o rapaz devia passar então por uma fase um pouco semelhante, ou pelo menos em um momento capaz de perceber a ostensiva demanda que lhe era feita sobre o balcão no qual se empilhavam cadernos, crayons e outras coisas que as crianças usam quando vão à escola. acho que comprávamos alguma delas para uma tarefa de escola do meu filho mais novo, que naquele ainda não namorava e gostava mesmo era do burguer king. meu amigo segurou a respiração até sairmos da loja e então se sentiu mais aliviado por voltar para casa. aquilo não era para rolar mesmo. uma querida amiga, a única que pode e me diz mesmo o que pensa, comentou uma vez que nós homens quando jovens temos também essa tendência de pensar que aquela vez com aquela namorada será a única chance de alcançar a suprema felicidade, e que isso é cansativo e enche a paciência. mas quando se prevê falta de amor no futuro se faz mesmo uma boa previsão, porque mais cedo ou mais tarde pode faltar mesmo, o que não quer dizer que tudo que aconteceu antes foi tão bom como queríamos.

                                                                              Igor Zanoni

sábado, 14 de fevereiro de 2015

A Bela Adormecida

mesmo neste mundo em degenerescência, como diziam os antigos mestres, encontro acontecimentos promissores. cansado e com a cabeça a mil, antes de me perder algo em mim me encosta e senta no murinho de casa, começo a respirar e os pensamentos se voltam para o jardim pequeno sob uma das janelas. há muito tempo ninguém cuida desse jardim, exceto o leandro, que todo mês vem ganhar seus cinquentinha mas só corta a grama, se posso chamar de grama a erva confusa que se mistura e fica de vários tamanhos até o dia em que é aparada como o corte de um recruta. a história desse rapaz é terrível para mim, já teve duas hepatites, foi despedido por tirar licença médica e com trinta anos cuida do filho já mocinho cortando jardins desse jeito despreparado. jamais reclamou, tem um fatalismo dos pobres de antigamente, mas com fatalismo e tudo tem seus instrumentos, uma grande clientela-pois quase não há jardineiros em curitiba- e leva seus instrumentos em um apresentável sedã vermelho.tenho de insistir para que ele aumente seu vencimento de vez em quando, pois ele calcula quantos fregueses pode perder se cobrar um pouquinho mais. mas a gasolina sobe, etc. e surge um consenso entre os tais fregueses de que está muito barato o corte da grama. aliás, há uma troca de informações sobre isso, assim como as diaristas sobem de modo mais ou menos consensual seu ganho, evitando competição danosa. mas, voltando ao jardim, há uma grande parte dele que ficou selvagem e o leandro não toca, com muitas espadas-de-são jorge  e babosas que meus filho mais velho plantou quando começou a perder cabelos. hoje realmente há babosas demais, lembram as figuras da história da bela adormecida cercada pela floresta asselvajada. sei que muitas meninas na escola onde trabalho se preocupam com o teor das histórias antigas, e em uma escola do primeiro grau houve uma redação e uma polêmica sobre se um homem, mesmo sendo príncipe, deve beijar uma mulher dormindo, ainda que seja princesa e deva acordar um dia, o povo de muito tempo atrás supunha que desse modo. enquanto me perco nessas observações vem-me a ideia de que algo foge na curitiba que se afoga na política e na dificuldade de se manter vivo, de que as ervas resistem, as babosas crescem, meu filho talvez venha ver-me um dia e quem sabe se descubra o modo adequado de cuidar de princesas enfeitiçadas sem ferir os brios das meninas de hoje.


                                                             Igor Zanoni