sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Retrato antigo

Retrato antigo


quando eu ia ver célia em sua casa perto do campo do mogiana, no bairro cheio de flamboyants e de um calor que lembrava a araraquara  de ignacio loyola brandão, na cidade que já era um ovo para as ambições de minha real primeira namorada, passava, lembrando outras cidades e outros contextos, um rapaz de bicicleta gritando para nós no portão: jesus te ama! só isso, era a consigna dos pirados de jesus, serena tribo franciscana que não precisava ler revelações do apocalipse como hoje se lê, entre tantos absurdos que se julgam necessários para encarar a dor diária. jesus te ama bastava, a célia gostava e sorria, eu gostava também, mas hoje é só um retrato antigo, mesmo naqueles dias eu sentia a impermanência de minha situação no mundo e me afligia.


                                                                            Igor Zanoni

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Poema mais que suficiente



adeus é suficiente
não me parece pouco
chegar a um carinho tão obscuro
pouquíssimo promissor
gastamos muito tempo em tudo isso
vãs promessas
chuvas de verão
não se aborreça
não perca domingos à tarde
com sonecas mal humoradas
olhando para o telefone
a vida é uma escola
onde nos entediamos
como qualquer pessoa saudável


                                  Igor Zanoni

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Ativismo



eu e o Francisco Inarra saímos em um comboio noturno do apartamento que dividia com Márcio na Plínio Barreto, a lado do Viaduto Nove de Julho, e rumamos para a Praça Roosevelt, mais tarde para a Praça da Sé, visitando confeitarias nas quais nos perdíamos entre as luzes e os doces coloridos, as luminárias da rua, luzes azuis no alto dos edifícios para os aviões, e entre tantas pessoas na cidade então segura e generosa. talvez tenhamos ido ao Brooklyn e visitado Tomoshige, já não sei. raras vezes uma viatura passava rente olhando nossos olhos mas deviam buscar outro tipo de suspeitos, não tardios hippies tranquilos s de cabelos claros e tão jovens. No dia seguinte tive uma prova de Filosofia Oriental com o monge Ricardo Gonçalves, então transitando do Zen para a Terra Pura depois de um período no Japão. defendi  que o Zen possuía outra lógica e uma concepção diversa do tempo e do espaço, e o monge foi generoso com minha impulsiva juventude, porque muitos dentre nós buscávamos um ativismo que visava nada menos que o cosmo.


Igor Zanoni

domingo, 20 de setembro de 2015

O Herói do Nosso Tempo




Faceiro, Promessa e Querido quebraram muito galho um do outro, penduraram contas, estudaram juntos para um futuro incerto, emprestaram grana para o fim do mês. Por tempo que não calcularam se encontravam aqui e ali, um atrás do balcão da farmácia, outro descendo do ônibus com uma filha dormindo no colo, o que faltou compensando o tempo perdido com sonhos que talvez dessem certo quem sabe com certeza é ter fé. Faceiro engordou cada vez mais com muito impreciso conhecimento que o mantinha sério e atencioso aviando receitas dos mesmos corticoides. Promessa ficou tão magro que deu o que falar e falavam mesmo. Querido ainda é muito querido por onde anda já não se sabe onde. Ninguém julgue pela aparência. Eles tiveram a sua vida e a apreciaram, não são nada raros tantos naufrágios que da praia ninguém vê, mais gente acaba mal com menos juízo sem amigos.


                                                            Igor Zanoni

sábado, 19 de setembro de 2015

A vida é curta



a vida é curta e eu deveria ser mais prático
mas a melancolia bouleversa meu coração
nos soluços longos dos violões d´outono
eu deveria beber mais champanhe
ser mais desatento
esticar as pernas às margens
antes do tejo que do ipiranga
levando tudo em conta
eu não deveria te dizer
essa manha toda deixa a gente
comovida como o diabo


                                                  Igor Zanoni