domingo, 17 de abril de 2016

Certezas


as pessoas estão muito brabas
e querem que justiça seja feita
e como se sentem frágeis
uma justiça feita com as próprias mãos
para compensar
sua cabeça foi bastante alugada
bem diante há um palco
e há os que querem essa cabeça a prêmio
e um palco com holofotes coristas
bandas camisas verdeamarelas
e muitos jornalistas que dizem
o que bem entendem
a bem da livre imprensa
da livre empresa
enfim (para encurtar) da liberdade de modo geral
e saem todos cantando ditirambos
esquecendo o passado
e na sua memória curta
acham que há uma solução
e que ela está aí
embora talvez com certeza não esteja
não esteja de modo nenhum


                                                                Igor Zanoni

sábado, 16 de abril de 2016

Mocinho

 
quando chegava compra eu enchia com a boca o saco de papel e batia forte com a mão direita. eu e meus irmãos achávamos engraçado, uma graça de pantomima inconsequente, mas cedo demais deixei de fazer isso, porque me sentia já muito mocinho.


                                                                 Igor Zanoni

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Obsessivo

lá pelos cinco anos fui com papai ver os aeromodelos que se apresentavam no Jardim Chapadão, perto de casa, na pracinha circular frente à Escola de Cadetes. fui atraído por um aviãozinho a motor, metálico, maior que os outros, e toquei uma de suas asas para melhor senti-lo. ela cedeu com um amassado feio. não pensei que pudesse me sentir tão mal. não fui repreendido, mas um pedido de perdão impossível de articular ficou em toda a minha cara. talvez esta seja a origem de outros momentos de culpa obsessiva que amealhei na vida. sempre quis um avião daqueles, no máximo pude comprar alguns planadores de balsa, que eu montava com perícia, sem que o museu das minhas insatisfações ficasse mais vazio ou tolerável, na cornucópia do mundo que jamais foi generosa com meus dedos estouvados.


                                                                              Igor Zanoni

quarta-feira, 13 de abril de 2016

O aqui e o ali

 

quem separou o aqui e o ali
o meu e o seu
e o eu e você mesmo
quem dividiu o ser e o não-ser
e deu ao não-ser campo espaço pátria
e ao ser exiguidade deveres medos
quem fez de mim e de você
esses objetos de um mundo alheio
que pensam em liberdade
quando não podemos ser livres
e nos obrigamos a tantas tarefas
tão dignas tão louváveis
tão duras e opressivas
que levam nosso amor nossa alegria
nosso senso de mundo
de humanidade
de seres todos pertinentes uns aos outros
uns dos outros devedores
em um calmo estar conosco
no qual jamais estamos?


                                                                      Igor Zanoni

domingo, 10 de abril de 2016

Aldeia


se estamos em nossa aldeia
bem percebemos para onde vão
o som das vozes dos vizinhos
o movimento na aparência tão solto
a geografia passional da aldeia
está em nosso corpo
como por exemplo lendo Sagarana
ou Corpo de Baile
sabemos logo para onde se dirige a ação
a silenciosa angústia e a guardada raiva
se vamos a outra aldeia
temos de ler seus poetas ouvir suas crianças
neles está o mesmo sentimento
a aldeia toda e o mundo
como podem entendê-lo
viajante não pare no caminho
não se perca no esquecimento
cautela com o mundo
que não é tão seu


                                                       Igor Zanoni