sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Imperfeição



desejo confeccionar um poema
com uma perfeita aderência ao meu dia
que se cole a ele como a calça justa
no corpo da moça ousada
mas meu poema escapa me trai
não  sei o que tenho tanto a dizer
ou se tanto do que digo não é assim mesmo
essa vasta imperfeição
se não traduzo o que trago de mim
em uma música algo estranha
mas por isso mesmo tão minha
falando do que não sei
mas me chama tanto a atenção
porque o resto está dito
não cabe ficar repetindo


                                                        Igor Zanoni

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Sputnik

a cachorrinha Laika sorria
na janelinha do foguete
eu a amava como depois amei
Gagarin com seu jeito de bom moço
nada intimidado com suas voltas no espaço
os soviéticos faziam uma boa propaganda
que nome bem achado o do Sputnik!
do lado de cá da Cortina de Ferro
fui um admirador do show
bom viajar nos sonhos de Júlio Verne
foi um grande passo para a humanidade
foi um grande passo para mim
para minha adolescência confiante


                                                            Igor Zanoni

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Mar

sigo pelo mesmo mar
ondas escuras profundas sempre sempre
apreensivo seguro o leme
sem grande coragem
também sem um temor
que levaria tudo a pique
o olhar adiante e às vezes no retrovisor
sigo pelo mesmo mar sempre sempre


                                                           Igor Zanoni

domingo, 16 de outubro de 2016

Um bolo de chocolate



enquanto ouço Bob Dylan
com sua voz cada vez mais frágil
eu oro ao Senhor no qual creio
de um modo pessoal instintivo
incompreensível
meus amigos estão para sempre comigo
dançando na cabeça de um alfinete
o passado se transmuta em ouro
eu leio em segredo o Zohar
fazendo um bolo de chocolate
para quando todos chegarem em casa
feliz aniversário neste tempo que não passa
feliz aniversário forever
eu nunca soube dizer adeus
e não vou aprender agora


                                                                            Igor Zanoni

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Paisagem urbana


para estas figuras eu não tenho panos quentes
se elas estivessem sobre o mármore
das calçadas do Batel
talvez sentissem o piso aquecido
como em um belo apartamento no Soho
mas elas só podem se deitar próximo à rodoviária
perto da Cassol
amarrando seus cachorrinhos no poste próximo
durante a noite
sobre colchonetes sujos entre mantas muito velhas
sua cabeça pende entorpecida na calçada
já não sentem mesmo a gélida Curitiba em redor
chuvosa e ameaçadora
em outros momentos estão ainda mais sozinhos
ao lado de um ponto de ônibus na Reitoria
na praça Santos Andrade ou na Tiradentes
há perto a solene catedral cheia de imagens e relíquias
mas para eles não desce um santo uma Virgem
eu gostaria de manda-los invadir a Prefeitura
ou o Palácio do Governo do Estado
gostaria que invadissem mesmo o Banco Central
e se fartassem nos restaurantes de Santa Felicidade  
mas eu não tenho nenhum poder
não posso colocar panos quentes nesta paisagem insensata
posso chorar entre a chuva desta cidade indigna de amor
com minhas lágrimas salgadas e inúteis


                                                                Igor Zanoni