segunda-feira, 18 de junho de 2018

Viagem


o DC-3 da FAB voava a pouca altura. sentado no longo banco lateral de madeira com papai eu espiava a mata sem fim. nós íamos de Cáceres, no Mato Grosso, até São Paulo, trocar veneno de jararacas e urutus por soro antiofídico no Butantã. papai havia construído com freis holandeses em Cáceres, onde servia no II Batalhão de Fronteira, um ofidiário para abastecer de soro o hospital local. foi uma grande iniciativa, pois eu mesmo vi pessoas doentes ou morrerem de picadas. não me lembro bem onde tomamos o avião, nem do resto da viagem. apenas me lembro de estar a pouca altura do solo, vendo nitidamente as árvores, no valente DC-3 que se tornou uma aeronave difícil de ser substituída, tão bons serviços prestava.

                                           Igor Zanoni

sexta-feira, 15 de junho de 2018

Chinelos

 
tenho dó dos seus pezinhos
metidos nos chinelos velhos
aconchegantes e meio rotos
furados
gostoso andar em casa com eles
que conforto tão conhecido!
acho que à notinha
quando ela vem do trabalho
os chinelinhos saem do tédio
gritam felizes:
oba! que bom! nossa dona voltou!

                                                              Igor Zanoni

sábado, 9 de junho de 2018

Desdita


o coração
doloridas desditas
o que não se pode calar
a seu modo fala
assim no sonho
felizes os que sonham
aqueles que o sonho consola

                                             Igor Zanoni

Monumentos



quando chove e o céu escurece
nas praças vazias os bustos e os monumentos
olham com olhos cegos
juntando sobre si o azinhavre
ninguém passa sobre o calçamento
 irregular escorregadio
apertamos sobre o corpo o casaco
no tempo morto dos monumentos
de vultos pátrios que nem conhecemos
há só o frio e a chuva
o feriado que nos prende ao ócio
ócio também dos bustos inúteis
olhando o vazio com seus olhos cegos

                                                         Igor Zanoni

Taça


um dia a taça há de cansar-se
do vinho rubro e perfumado
da boca suave que o sorve
seu cristal translúcido há de romper-se
seu cansaço há de mostrar-se
face a essa festa insossa
esses rostos afogueados
pelo prazer incansável de viver
um dia o material de que é feita a taça
há de romper-se
ei-la no chão em mil cacos
cansada da vida insensata
dos reflexos vãos das festas velhas
enfim repousará
despida de sua forma
corola vazia concha esquecida 


                                                     Igor Zanoni