sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Casa velha


as persianas de madeira da janela
como hoje já não se usam
eram verdes e se abriam
para as floreiras de pedra
cheias de gerânio aveludado
com suas flores rubras que eu amava
a casa tinha uma grade baixa
em frente um espaço com violetas miúdas
um cróton folhagens rosas
aos poucos tudo deu lugar a ladrilhos
as floreiras sumiram diante
 de novas janelas metálicas
a casa toda era sempre reformada
e as grades agora altas
se abriam com um motor elétrico
um pé de pitanga ao lado da casa
papai cortou depois do mamoeiro
viver ali ficou mais prático
lavável com uma mangueira
minha relação com o que a casa possuía
de bairro de coisa antiga
se perdeu com uma raiva das mudanças
e me guardei feroz dentro de mim
entre pitangas imaginárias
e gerânios de sonho


                                                                                 Igor Zanoni

Impromptu

 

mesmo que eu falasse a língua dos anjos
jamais saberia compor um único
breve improviso de Schubert


                                                           Igor Zanoni

Bravura




é claro, não nadamos a favor da corrente
contestamos a corrente
mas não podemos negar o rio
não sonhamos como uma criança gulosa
que quer porque quer um doce
queremos sim um doce
mas sabemos o quanto ele nos é recusado
buscaremos a felicidade
a igualdade a paz a vida boa
por caminhos difíceis neste mundo difícil
talvez nosso destino seja fracassar em tudo
mas na verdade não fracassaremos
seremos antes derrotados
e quando as bandeiras dos bárbaros
passarem sobre nós
a única lágrima será nossa
honraremos nossa lágrima
e seguiremos com nossa bravura
ainda que inútil


                                                                     Igor Zanoni

domingo, 3 de dezembro de 2017

Rio


o momento em que a vida
lembra um rio sem sobressaltos
no qual posso sentar-me na relva
vendo o dia fluir
os gestos o pensamentos
se aquietarem
neste momento quem está próximo
não me aflige
estou longe dos dissabores
deste mundo estranho
fora de propósito
atento à cúpula do céu
ao sol à verdura
a mim mesmo tenho
como é difícil ter a mim mesmo!



                                                                                Igor Zanoni

Entre eu e você


nós nos sentamos aqui
com uma paciência que inventamos
porque a mim cabe dizer tudo
para sua escuta atenta
a sala está isolada do que não seja
o meu e o seu coração
e dias se passam assim
o tempo que tudo muda
aos poucos também me toca
como eu poderia agradecer
o carinho a bondade?
já não o eu antigo
mas este que criamos juntos
entre eu e você


                                                             Igor Zanoni