quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Portta fechada


lixo se acumula na porta da frente
logo não conseguiremos mais sair
por ora abrimos uma fresta
na rua um cortejo sem soluços
 sem lágrimas
antes com a risada turva dos imbecis
hoje se comemora a morte de um mundo
que não houve mas foi sonhado
nós tínhamos ao menos esperança
hoje a palavra torpe
o não brutal
o lixo que se acumula
trancam a porta sabe-se lá até quando

                                                           Igor Zanoni

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Isso é só o fim


o mundo não findará
com poder e grande glória
dois estarão trabalhando no campo
um morrerá de tédio
outro de nervoso
quando o viver se tornar confuso
e os sentimentos banais
se espalharem nas redes sociais
então virá o fim
com um aperto no peito
um soco no coração
os anjos não assoviarão aleluias
o diabo sonolento
há de coçar o saco

                                               Igor Zanoni

domingo, 6 de janeiro de 2019

Boteco

no boteco há vários amigos. quem não faz amigos num boteco? especialmente depois de tantas vodcas cotidianas, na volta do trabalho, atrasando para desespero das patroas a hora de chegar em casa. a conversa é variada. como o povo gosta de pescar, de vez em quando saímos em uma van para pescar em uma represa durante o final de semana. o povo gosta de política também, mas não sai briga, porque a instituição boteco abriga a todos os frequentadores. ninguém ali é um gênio mas temos a ideia de lançar na próxima eleição um candidato para tomar conta dos bêbados do bairro. trata-se de um problema sério, concreto, urgente, porque a hipocrisia reinante torna perigosa nossa vida. se a coisa andar, teremos um candidato sem ideologia definida mas honesto defensor de uma causa pequena, é verdade, mas crucial para a vida de tantos aos quais uma vodka torna a vida muito mais interessante.

                                   Igor Zanoni

sábado, 5 de janeiro de 2019

Grilo


há nomes figuras rostos
que saltam em minha memória
e em meu coração
já não pertencem ao meu cotidiano
mas o afeto não permite
que se desprendam
povoam o sonho
o instante insólito
em que se introduzem na conversa
no detalhe de uma percepção
figuras nomes rostos
que a mim pertencem
nesta imprecisa exatidão
como um grilo minha alma
salta

                                                  Igor Zanoni

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Caligrafia

o que é um poema
uma armação de palavras
ideias livres associadas
tentativa nem sempre feliz
de beleza
sentido que o músculo tece
em pleno gesto
o porquê é preciso escrever
este poema e não outro
ou nenhum
meu Deus o que é um poema
amiga gentil
a ti confio minha caligrafia
sentimental

                                                       Igor Zanoni