domingo, 29 de março de 2020

Luto


Há alguns dias
Eu estava fazendo outras coisas
Como pegar o ônibus para trabalhar
Ou ir ao psicólogo
Nada muito emocionante
Mas parecia que aquilo era a vida
Com a sua carga combinada
De afetos e melancolia
Sim parecia que vivia no final dos tempos
Mas essa impressão era algo teórica
Parecia que afinal era possível viver
Sem levar isso muito a sério
Hoje a realidade é mais real
A fantasia foi jogada
Para o limbo do luto
Neste jogo vivo
Ignorante do dia seguinte
Se estarei vivo
Vejo os caixões na internet
Enfileirados
Sim isto começou em um país distante
Mas quando chegou a mim
Eu estava pronto para entender
Mas não para aceitar
A melancolia não tem palavras claras
O luto é silencioso
Visto-me de negro
Negra é a solidão
Assim como o infame pesar

                                                               Igor Zanoni

sexta-feira, 27 de março de 2020

Pátria


Entre nós a palavra nação
Não passa de um equívoco
Não temos para consumá-la
A necessária solidariedade
Humana e cultural
Há os que gritam
Pátria amada Brasil
Mas nós temos sim um país
Um território cheio de polícias
Um Brasil que se ergueu
Na aventura mercantilista
Mas nunca Pátria
Que amor esse incoeso
Fratricida país?
Quem de nós é o Brasil?
Eu mesmo não posso ser
Vivendo-o em um torpe
Sinal de menos

                                                      Igor Zanoni

quarta-feira, 25 de março de 2020

Pai e filho


Na minha fotografia
O rosto sorridente
Uma barba rala
Um homem já quase velho
Mas ainda com certo charme
Revejo o rosto de meu pai
Alguns traços na forma de falar
E rir ou mesmo de se irritar
Eu que tanto o amei e combati
Como os filhos em geral
Fazem aos pais
Penso que tive justa razão
Nesta nossa longa pendência
Não vou aqui explicitar motivos
Assusto-me apenas com essa aparência
Física e espiritual
Nós que nos tratamos com carinho
E andamos às turras
Esses homens um velho
Outro que se foi
Guardo um sentimento confuso
Como são os sentimentos
Não há mesmo um sentimento
Que seja límpido espiritual
Cristalino
Este homem amei e odiei
Como a mim mesmo

                                                       Igor Zanoni