sábado, 28 de março de 2015

Dentista

Dentista

os livros de papai foram minha primeira e fascinante biblioteca. amava sobretudo um chamado Paradencio, com inúmeras fotos de infecções de gengiva, piorreias, tumores diversos, sisos nascendo em lugares insólitos e todas as dolorosas maravilhas que podiam  acontecer na vida de  um modesto dentista como ele, mal seu cliente abrisse a boca.


                                                                        Igor Zanoni

Pessoas interessantes


há pessoas lindas maravilhosas
divinas
falam línguas
vivem só de clorofila
adoram a natureza
vão sempre a Superagui
são magrinhas
às vezes até são loiras
e andam de bicicleta
são tantas vezes meigas e bondosas
uns brincos
mas antes de se derreter
pense bem
converse quinze minutos
veja se está diante
de uma pessoa interessante

                                                  Igor Zanoni

Pegar no colo

Pegar no colo

quando você me escreve eu dou um pulo
conto até mil para não correr
pegar um ônibus melhor um avião
e te pegar no colo
é claro que é impróprio
eu não sou seu pai
não fica bem
o que você acha
eu voo até você
e te pego no colo
fale do que precisa
vamos pensar juntos
duas cabeças pensam melhor
dois corações batem mais forte um uníssono
mas se não der certo vou te pegar no colo
tente por mim e por você
se as tuas tentativas todas falharem
não é o caso de ficar triste
eu te pego no colo
eu dou um jeito
se minhas próprias tentativas falharem
por favor não brigue
eu dou um jeito
eu vou te pegar no colo

                                                                        Igor Zanoni

Chuva

a chuva que isola minha casa
a chuva generosa e possante
me salva da vida que devo ao mundo
quando saio
sob suas tantas condições
e arbítrio
ela não verte neste poema seu som
eu posso ouvi-lo caindo do céu
mesmo um céu baixo
de nuvens sobre o bairro
me basta
a raiz da primeira chuva e do que esqueço
me busca


                                                           Igor Zanoni

Albert Camus



ao despedir-me da adolescência, os livros de Albert Camus me atraíram por mostrarem um mundo hostil diante do qual eram possíveis e necessárias nossa liberdade e nossa solidariedade. muitos o criticaram por recusar o comunismo e ser contra a independência da Argélia, mas eram tempos do stalinismo e ele se sentia tão francês quanto argelino. apreciava o sol e as praias do Mediterrâneo e era um rapaz charmoso. vi no Clube de Ciências de Campinas fotos do acidente de carro em que morreu, e lamentei terrivelmente o acidente. além de ler todos os seus livros, comprei um com fotos suas, quase sempre de capa de gabardine e com um Gauloise no canto da boca. Paulo Ottoni comentou vendo o livro: “consumo do existencialismo e existencialismo do consumo”. isto me irritou muito, pois Camus era um homem como eu queria ser, um dos meus modelos prediletos. quando entrei na Usp um professor disse que Camus não poderia ser considerado filósofo, ao contrário de Sartre, que aliás eu não entendia e de cujos romances não gostava. logo deixei o curso e fui viver meus próprios dias e meus próprios trabalhos.



                                                                                                                             Igor Zanoni