quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Silêncio


tentarei viver o silêncio
não sei quanto tempo será possível
o suficiente para não ouvir
respostas abusadas
nem dizer tolices de que me arrependa
o silêncio é uma benção
uma oração lúcida
ele não demanda crenças
apenas uma profunda autoconfiança
a sua cabeça está em paz
o navio não joga demais
ninguém se aproxima com insultos
os velhos impropérios que enchem toda casa
já não são ouvidos
um silêncio assim
tão penetrante e íntimo
não tem nada a ver com o dos cemitérios
aqui há só você
incrivelmente vivo
e em volta a vida
vivinha da silva

                                       Igor Zanoni

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Raiva


embora não seja fácil
é possível desenvolver
uma certa lucidez sobre o que acontece
embora também não seja fácil
quando a lucidez não é muito grande
é possível desenvolver
atitudes de perdão e altruísmo
se o que acontece nos desagrada
há caminhos para manter a serenidade
se possuirmos lucidez ou perdão
algo egoísta nos impele entretanto
a perder a cabeça
quando o que acontece incomoda
a raiva se acende
um fogo abrasa nossas palavras
 entretanto há outros caminhos
por que preferimos o caminho
 mais danoso?

                                          Igor Zanoni                                                                                   

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Festa


há pássaros bem no alto
circulando a tarde
há rosas rubras
e casais conversando
o jardineiro poda a grama
o carteiro segue com sua sacola
e a menina saindo do postinho
chora porque tomou vacina
tudo parece singelo e banal
mas nesta terra de desastres
a menor beleza
a menor evidência do que vai bem
faz uma grande festa

                                                  Igor Zanoni

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Acaso


o que poderia ter sido é ilusório
eu poderia ter me casado
com outra namorada
encontrado outro trabalho
conosco o acaso joga seus dados
e às vezes me sinto tão complexo
que preciso procurar o doutor

                                    Igor Zanoni

sábado, 9 de fevereiro de 2019

Cálice

a que compararei você?
a um vinho insinuante
que sem aviso inebria?
ao cálice que o contém
translúcido cristal
onde a luz da sala se reparte
 arco-íris dos do amor perdido?
límpido cristal que sem aviso
se parte
cacos que me dilaceram o pulso
o sangue que alegre brilha
meu rosto entristecido
de dias vãos e padecimentos idos?

                                          Igor Zanoni