quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

A Cozinha da Revolução, de Ma Jian

Ma Jian (1953- ) é um dos escritores mais corajosos e críticos da literatura chinesa. Em A Cozinha da Revolução (2004), lançado No Brasil pela Record em  2011, narra uma conversa entre um cético escritor de propaganda política e um doador de sangue profissional durante um jantar na casa do primeiro.  O escritor fala acerca de um livro que gostaria de escrever, com personagens intensos que caracterizariam a verdadeira China. O livro se passa no início da política de reformas e de Portas Abertas, no final dos anos oitenta. O resultado é uma coleção de histórias que se enlaçam, marcadas pela crítica ao modo de vida entre o riso e o choro que a maioria das pessoas levam. Assim, na primeira história um jovem empreendedor constrói um crematório e passa seus dias buscando mortos já de manhã para seu negócio, e acaba por cremar viva a sua própria mãe que consente nisso. Na próxima história, uma artista de teatro encena uma peça na qual se deixa devorar por um tigre à vista de todos. Há outras histórias, mas talvez a culminação seja a saudade e a lembrança de um escritor de seu falecido cão, um animal de três pernas profundamente crítico da revolução e que descrê do sistema marxista-leninista. O cão morre quando alcança livros colocados em uma prateleira alta no escritório de seu dono, livros de Nietzsche, Schopenhauer, Freud e o “desacreditado” Hegel. Na verdade, morre intoxicado com a leitura. Essa é uma China em que as pessoas correm para comer, fazer sexo e ir às compras, que se preocupam em primeiro lugar com dinheiro e cupons de comida, onde o Partido decide sobre os principais aspectos do destino das pessoas. Ma Jian escreveu também Pequi em Coma, sobre os incidentes da Praça da Paz Celestial em 1989 e hoje vive em Londres.

 

                                             Igor Zanoni

 

 

 

quarta-feira, 25 de janeiro de 2023

Laços

Esse relacionamento está confuso

E complicado

Eu não tenho muita lucidez sobre isso

Sei que comigo você pode estar segura

E eu me sinto seguro apesar de tudo

A dor existe mas junto a ela

Surge quietude

Não precisamos ficar tensos

A confusão a complicação

Passarão com a noite

Amanhã teremos de novo sol

E um dia inteirinho

Para reaprendermos a viver

 

                                                        Igor Zanoni

 

domingo, 22 de janeiro de 2023

Crônica de um vendedor de sangue

Neste livro de 1995, de Yu Hua, talvez o maior escritor chinês contemporâneo, mundialmente premiado, expõe três temas principais. O primeiro é o comércio ilegal de sangue onde chineses pobres vendiam em instalações sem preparo adequado sangue para complementar suas parcas receitas domésticas. Esse comércio termina na grande epidemia de AIDS do início dos anos 2.000, tematizada também em O Sonho da Aldeia Ding, de Yan Lianke, concluído em 2005. Outro tema articulado a esse é um drama familiar. Xu Sanguan se casa bem jovem com Xu Yulan e durante nove anos cria uma família bem ordenada com três crianças, Yile, Erle e Sanle. Após esse período descobre que Yile não é seu filho legítimo, mas fruto de um estupro que Xu Yulan sofrera pouco antes de seu casamento. Ele descobre isso ao perceber, como todos na aldeia, a parecença física de Yile com o homem que estuprara Yulan. Por muito tempo isso gera uma crise no lar em questão, mas o amor que Yile devota ao pai adotivo, que o criara, vai minando a dureza de Xu Sanguan, até o momento de clímax do livro, quando o rapaz contrai uma grave hepatite e Sanguan passa a vender sangue sem qualquer critério de prudência, para poder pagar as contas do hospital em Xangai. Com o tempo a família, passados os reveses dos primeiros tempos da Revolução Chinesa, se estrutura em termos financeiros, todos trabalham e Xu Sanguan, já sexagenário, não precisa expor sua saúde para sustenta-la. Eis o terceiro tema do livro, a pobreza chinesa e a luta por sua superação, que se dá no plano individual dos camponeses e operários e no plano nacional. O livro é de fatura realista, de escrita seca e contida ao mesmo tempo que bela, na qual o narrador se esconde atrás das peripécias da família Xu. Vale a pena conferir.

 

                                              Igor Zanoni