domingo, 30 de dezembro de 2012

Kierkegaad


Para mim, que conheço superficialmente filosofia e estou lendo pela primeira vez Kierkegaard (As Obras do Amor-Considerações Cristãs em Forma de Discursos), arrisco-me a fazer algumas considerações sem pretensões senão a de esclarecer para mim mesmo o texto e convidar a lê-lo quem se interessa pelo cristianismo e deseja fugir da Bíblia como um manual auto explicável. O amor é exaustivamente pensado como uma obrigação divina e uma iluminação interior. Explico. A medida para amar o próximo é amar a si mesmo, ou na medida em que se ama o próximo deve-se amar a si mesmo. Esse mandamento que condensa a mensagem cristã tem assim via dupla, e se abre numa síntese que é o amor a Deus. Por outro lado, se alguém diz que não pode amar “o homem”, mas sim este ou aquele homem, isto deve ser verdadeiro para o amor a todos os homens e, portanto não apenas a indivíduos particulares, mas a um “homem “genérico, síntese de todos os outros dos quais procede e ao qual aqueles remetem. No que se refere ao amor entre um casal, mesmo que nada se modifique exteriormente, e se considere, como diz Paulo, o homem a cabeça do casal, a submissão da mulher ao homem e o dever do homem respeitar sua mulher e não irritá-la, ao mesmo tempo o amor entre ambos, sendo um amor cristão, ilumina a relação e a transforma desde dentro, de modo que já é de outro amor de que se fala . Novamente uma polaridade e uma síntese. Assim procede o autor, num modo de pensar que se inspira na dialética de Hegel e privilegia o viver humano como viver e transformar o mundo, ainda que este aparentemente não se altere. Os exemplos se multiplicam e esclarecem a cada momento o que é afinal o amor, considerado em suas obras. Porque é nestas obras que afinal se dá a conhecer, partindo da vida de cada um e de suas relações, com o próximo, consigo e com Deus. Coloca-se este em último lugar, apenas porque para Kierkegaard não se pode amar o “Invisível” sem amar o que é “visível” e está ao nosso lado. O amor transforma as relações do ser humano com outros desde a forma como compreende e se dispõe a viver o amor, isto é, desde a forma como vê o outro e se dispõe a amá-lo. É uma obrigação que revoluciona o que está aparentemente imutável. Na verdade não se conserva imutável porque para cada um tudo ao redor muda, a partir de sua própria essência cristã, obedecida e conquistada. É um autor que se põe contra o status quo, no qual se entrevê uma linha de pensamento que parte do viver de cada um, de sua existência, que o amor em sua exigência revoluciona.

                                                Igor Zanoni

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