terça-feira, 13 de setembro de 2016

Frigidaire


no quarto ao lado da copa, eu adormecia com o ressonar da geladeira, com as mudanças de velocidade do motor, seu súbito estremecimento para regular a temperatura e depois o silêncio na noite. meu pai havia comprado a geladeira na Sears Roebuck, bem no centro velho de Campinas. ele adorava ir à Sears, devia ser um substituto de ir aos States, sempre sozinho, minha mãe não o acompanhava. a geladeira era grande, não me lembro quantos pés de altura (pé, naturalmente, uma medida americana, a geladeira não tinha sua altura medida em metro e tantos centímetros) e pior, vermelha. para horror de mamãe, uma grande e moderna caixa metálica vermelha na copa. claro que vermelho era moderno, fugia à linha branca, papai era moderno, gostava de retocar a casa, trocar as grades da frente, substituir  o jardinzinho por ladrilhos, cortar o meu belo pé de pitanga, o mamoeiro, a guambé, cortar a grama dos fundos de casa e por aí afora ao longo de décadas. saia pouco de casa, trabalhava na verdade em casa, viajava pouco, deve ter sido um marido monótono, mas eu sobrevivi às altercações caseiras com um invencível silêncio. e à noite dormia próximo à rubra Frigidaire, seu ressonar acalmava minha inquietude, me fazia dormir.



                                                                  Igor Zanoni



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